O IBGE divulgou, na última semana, os dados referentes ao PIB no terceiro trimestre do ano. Os resultados caíram como uma ducha de água fria, quase gelada, no mercado financeiro. Apesar de um pequeno crescimento em relação ao trimestre anterior - o que tecnicamente evita que possamos caracterizar uma recessão econômica neste ano -, o quadro descrito por nossas contas nacionais é medíocre! Ainda mais, faz com que o crescimento econômico “per capita”, neste primeiro ano do governo Lula, seja negativo.
A partir do instante em que a inflação passou a convergir para a meta inflacionária do próximo ano, o que permitiu ao Banco Central iniciar um processo gradual de redução dos juros, as expectativas com a volta do crescimento econômico explodiram. A maioria dos analistas econômicos, entusiasmados com a ortodoxia econômica do ministro Palocci, passou a apostar em uma retomada imediata do crescimento da economia. As previsões para 2004 passaram a ser revistas para cima quase que semanalmente.
Tenho mantido uma postura mais cuidadosa em relação à retomada do crescimento em 2004. Coisa de dor de cotovelo de tucano, alguns de meus leitores devem ter pensado. Posso escutar estes murmúrios mesmo à distancia. Mas isto não é verdade. Minha atividade como colunista remonta ao ano de 1979, quando substituí o ex-ministro José Serra no jornal a Folha de São Paulo. Se consegui o respeito dos leitores de vários jornais foi por ter mantido minha razão separada das coisas da política. Principalmente quando se trata de pensar a economia!
Creio que posso me caracterizar como um velho keynesiano atualizado. Meu raciocínio econômico está sempre voltado para o que ocorre na chamada economia real. Manter o equilíbrio entre a teoria e a compreensão do fato econômico é o segredo de polichinelo para acompanhar a economia de um país. Não é um exercício fácil, pois as condições históricas e a realidade institucional em que o chamado fenômeno econômico ocorre estão sempre em contínua mutação. Alguns colegas meus não levam a sério este segundo desafio e seguem apenas o que está escrito em livros texto. Com isto, em alguns momentos, são apanhados em armadilhas terríveis.
Como acontece agora com a questão do crescimento econômico. A redução da renda dos brasileiros, nos últimos quatro anos, foi impressionante. Somente neste primeiro ano do governo Lula ela atingiu incríveis 15,2%, equivalente a uma perda de 60% do salário mínimo na renda média do trabalhador brasileiro. Além disto, a disparada dos preços de serviços e produtos essenciais, para uma família média, fez com que a parcela disponível para a renda dita supérflua tivesse um tombo ainda maior.
Esta realidade não foi percebida por grande parte dos analistas, o que fez com que seus modelos de previsão entrassem em “looping lógico”. Por isto, a realidade tem se mostrado tão perversa com eles. O crescimento econômico vai voltar em 2004 com uma velocidade e intensidade menores do que o otimismo recente tem alardeado aos quatro ventos. Os efeitos desta melhora só serão sentidos pela população a partir do segundo semestre do próximo ano!
O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES.