A notícia veio com seu espanto no meio da tarde do domingo. Mara Gião, que foi uma das tantas “estrelas” de Sérgio Lhamas, transmite o infausto ocorrido no dia 26, em SP, neste novembro. Há quanto tempo não o via! E me morre assim, sem tempo de um “como vai? Aonde vai você, Serginho...”. Fomos distanciados pela verve de uma outra “amiga”. Mas houve um tempo com muito tempo para agitarmos nossa cidade.
Ele foi na época a 1.ª star bauruense. A gente seguia sua trilha luminosa de bon-vivant. Boa comida, bons vinhos e muito romance. Jornalista de mão livre, falava todas para todos. Professor, era adorado pelos alunos e manipulava a língua portuguesa com maestria. Poeta, redator. Polêmico Lhamas (primo do astro Lorenzo Lamas que, por sua vez, é filho do famoso Fernando Lamas, latin-lover dos anos 50).
Numa época de repressão, ele semeava poeira de estrelas pela cidade e região. Todos queriam um pouco do brilho do Sérgio. E ele atacava, tripudiava sobre estentóreas figuras da raia bauruense. E lhes causava mais brilho com isso. Era estelar ser atacado por ele.
Acompanhei lado a lado seu brilho ofuscante por mais de dez anos e construímos muita coisa juntos. Rainhas eram montadas pela gente nos concorridos concursos da época. Nossa escolhida era a vencedora, fosse de que clube fosse. Talentos poéticos eram revelados nos concursos de poesia que realizava. Vitor Martinello foi um deles. Cabeça mesmo, era um orgulho ser seu amigo. E abalava com fulminantes. Quanta cabeça coroada rolou aos pés de Lhamas. Eu sei, fui testemunha.
Nos intervalos disso tudo, corríamos a noite da cidade de bar em bar. Todo point da moda acomodava a ruidosa presença do Lhamas e o meu silêncio acompanhante. Mais de uma vez, ao me trazer pra casa, o dia querendo amanhecer, ele tentava jogar o carro por sobre a murada da av. Pedro de Toledo. Sempre evitei que fôssemos chafurdar na esplanada da NOB. Como ser pensante preso na condição humana, a grande estrela também tinha frustrações e desespero. Isso quando a cerveja falava mais alto, porque, depois, ele era sempre e só alegria.
Ele e o Egas William Berbert eram adeptos do debique e do deboche como descarga de estresse. E a cidade ficou mais pobre e acabou-se o tempo das estrelas. Mas antes disso casou e teve duas lindas filhas com Patrícia Avallone, filha do Nicolinha. E é assim que procurarei lembrar dele. O grande sorriso. A grande euforia de viver desse amigo dos baianos Caetano, Bethânia e a família Veloso toda. Lembrarei dele exigente, pois que em tudo exigia um certo toque de fina ironia: aceitar e viver apenas o “crème de la crème”. E acho que assim foi. Não há mais espaços para seus gestos amplos nesse nosso pequeno mundo. É isso.
Hesso A. Maciel - RG 4.161.922