09 de julho de 2026
Articulistas

Os médicos e a sua nova missão


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Ao presidir, há dias, a solenidade de formatura da 36.ª turma da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, tive a oportunidade, na presença de docentes, alunos e representantes da comunidade, de lançar, a propósito do exercício profissional, alguns temas para reflexão. A experiência do passado leva-me a crer que a medicina é, hoje, muito mais difícil de ser exercida do que há 40 ou 50 anos, a despeito - ou até por causa – do progresso tecnológico alcançado pelas ciências da saúde.

A modernidade - como lembrei - transferiu a morte do lar, lugar do amor, para os hospitais, lugar de poder. Os médicos foram arrancados das cenas da intimidade familiar e colocados à frente de um complexo aparato de equipamentos e drogas para, com eles, combater a morte. Mas, muitas vezes, ela nos vence e, sob a suspeita de erros, saímos da lide derrotados e sufocados por uma sensação de fracasso.

Hoje - disse aos formandos - trabalhamos em hospitais, empresas que vendem serviços, cujo prêmio de qualidade é vencer sempre a morte e gastando pouco com isso. O calor e a devoção humana foram trocados pelo controle de custos, pelo lucro e pelos procedimentos que garantam mais ganhos à empresa. O estresse e a tristeza são, hoje, companheiros presentes na vida de muitos médicos, e o desconforto é agravado pela competição feroz de mercado.

Todavia, apesar de tudo, há acenos de uma nova aurora em nossos horizontes. A humanização do atendimento à saúde, cobrada pela sociedade e alardeada pela mídia, pode ser o sinal de um novo tempo.

A cura de mais de 80% das doenças requer pouca tecnologia, mas muito amor e dedicação. O Programa de Saúde da Família e a transformação do ambiente hospitalar em um espaço solidário poderão reconduzir os profissionais de saúde à antiga proximidade com seus pacientes e à vitória sobre a moléstia, a morte e a desesperança.

Foi a essa empreitada que conclamei os novos médicos e meus ex-alunos. É imperioso substituir a visão meramente assistencialista, por uma abordagem mais ampla e de profundo cunho social. Não basta atender o paciente portador de um hematoma e discutir a patologia com um especialista. É preciso vislumbrar, nesse sinal físico, o ato de violência que o causou e entender, ou quem sabe propor e implantar uma rede de cuidados para prevenir as causas do mal.

Os profissionais formados por uma escola pública de qualidade constituem uma elite, um grupo privilegiado que tem um compromisso moral com a população que lhes financiou o estudo e o grau. Não poderão, a nenhum título, renunciar à tarefa de construir, ombro a ombro com a sociedade, um novo, universal e mais humano sistema de saúde.

A autora, Marilza Vieira Cunha Rudge, é professora titular e diretora da Faculdade de Medicina da Unesp/Botucatu e membro do Conselho Estadual de Saúde.