09 de julho de 2026
Saúde

Refluxo esofágico afeta 12% no Brasil

Sabrina Magalhães (com Agência Folha)
| Tempo de leitura: 3 min

Azia, mal-estar, náuseas e queimação no estômago estão entre as reclamações mais comuns na população brasileira. A maioria dos casos ocorre em conseqüência de abuso alimentar ou alcoólico. No entanto, pessoas que apresentam esses sintomas com muita freqüência podem estar com a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) - um distúrbio que, se não tratado, pode levar a sérias complicações.

Uma pesquisa realizada pelo DataFolha em nove regiões do País constatou que a doença afeta cerca de 12% da população (20 milhões de brasileiros). Ela é caracterizada pelo retorno dos sucos gástricos ao esôfago. A acidez destas substâncias digestivas irrita a mucosa (pele que reveste internamente) esofágica, causando alterações que vão desde a inflamação superficial até o câncer.

Em organismos normais, os ácidos digestivos ficam retidos no estômago graças a uma válvula (esfíncter) localizada na junção deste órgão com o esôfago, que só se abre para dar passagem a alimentos e líquidos, fechando-se novamente. O refluxo ocorre quando aparece algum “defeito” nessa válvula.

De acordo com o Guia da Saúde Familiar (IstoÉ, 2001), há duas razões principais pelo aparecimento do distúrbio, que podem aparecer isoladamente ou juntas.

Uma delas é o relaxamento demasiado da musculatura do esfíncter, que pode ocorrer por excesso de peso, consumo freqüente e exagerado de bebidas alcoólicas, tabagismo, alimentos (condimentados e gordurosos) e, ocasionalmente, remédios. O refluxo tende a ocorrer durante o sono ou quando a pessoa está deitada.

Outra causa freqüente da DRGE é a hérnia de hiato. Algumas vezes, o hiato (abertura) do diafragma é muito largo e facilita a dilatação da “boca” do estômago. Com isso, o funcionamento da válvula fica comprometido e ela não consegue vedar adequadamente a passagem dos ácidos.

Ao retornar para o esôfago, os sucos digestivos “queimam” a mucosa que reveste o tubo, causando dores e náuseas. Se isso acontece esporadicamente, porque a pessoa comeu demais e a válvula não suportou a pressão dos alimentos, o indivíduo sente um mal-estar, mas logo se recupera. O problema surge quando o refluxo torna-se freqüente.

Com o tempo, a acidez pode causar uma inflamação na mucosa chamada (esofagite). O distúrbio pode ser facilmente tratado com medicamentos e mudança de hábitos, como reduzir as porções alimentares para não encher o estômago, elevar a cabeceira da cama 10 a 15 centímetros para maior conforto ao dormir, perder peso e parar de fumar.

Se a pessoa, porém, não faz o tratamento, a inflamação persistente pode evoluir para dois quadros graves: o estreitamento esofageano e o esôfago de Barrett.

O estreitamento é uma complicação causada por cicatrizações sucessivas da mucosa lesionada. Ao acumular-se no esôfago, o tecido cicatricial diminui o diâmetro do tubo, dificultando a deglutição (mecanismo que permite engolir).

Existem algumas alternativas para reverter o quadro. A mais comum é o alargamento do órgão por um procedimento endoscópico, associada a medicamentos chamados inibidores de bomba de prótons, que reduzem a produção dos ácidos estomacais.

Outra complicação grave decorrente da exposição persistente ao ácido é o chamado esôfago de Barrett. Com o tempo, a parede interna do órgão sofre alterações e torna-se semelhante à parede interna do estômago, coberta por um muco protetor. Segundo especialistas, a pessoa pode conviver com a alteração sem prejuízos para sua qualidade de vida. Porém, estudos comprovam que após um período de muitos anos, o distúrbio pode se transformar num câncer.

De acordo com o médico Laércio Gomes Lourenço, professor de gastrocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o refluxo ocasional após a ingestão exagerada de bebidas alcoólicas e alimentos pode ser considerado normal.

Mas o presidente da Federação brasileira de Gastroenterologia, Fernando Miranda Cordeiro salienta que se houver azia e regurgitação duas ou mais vezes por semana, é preciso procurar um especialista e seguir um tratamento.