Segundo o presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, existe um certo exagero nas propagandas do Governo sobre os recordes da agricultura no Brasil. Apesar disso, ele diz que o setor passa por um bom momento, principalmente devido ao desempenho de algumas culturas, como a da soja.
Para ele, o plantio de soja ainda tem muito a expandir no Brasil, inclusive na região de Bauru. "Já estão plantando soja em Garça", conta. Mas Lima Verde reclama que em Bauru a agricultura não tem incentivo político. "Existem estudos que dizem que Bauru é a região mais propícia para o plantio de cítricos, por causa do clima", frisa.
Lima Verde, que também é vice-presidente da Federação de Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), concedeu uma entrevista ao JC na qual aborda - além do atual período da agricultura - questões fundamentais do setor, como os transgênicos, a relação com o Movimento dos Sem Terra (MST), e comércio com outros países. A seguir, os principais trechos.
Jornal da Cidade - A agricultura está sendo mais valorizada ultimamente? Maurício Lima Verde - Alguns produtos estão passando por um momento muito bom e o Governo usa isso como marketing, faz propaganda dizendo que o Brasil está batendo recordes. Da cotação atual de 19 produtos, apenas três ou quatro têm uma cotação ascendente. O café está passando pelo seu pior período em 300 anos de instalação da cafeicultura. Agora, isso tudo é cíclico. A soja, a cana-de-açúcar, a laranja e, eventualmente, o milho estão bem e o Governo quando mede seus índices de produção, pega só a de grãos. O que acontece? A soja corresponde de 60 a 70% da produção de grãos e está com um preço muito bom. Então quando o Governo fala em colher 100 e tantos milhões de toneladas, estatisticamente, isso é muito bom, mas não significa prosperidade porque você tem só três ou quatro produtos que pesam. Existe uma série de produtos que estão com preços cadentes
JC - Qual a participação do Governo nessa situação? Lima Verde - Felizmente, devido a um trabalho político muito grande das lideranças, conseguimos fazer com que o Governo não atrapalhe, que é o que acontecia antigamente. Eles viam um setor que estava ganhando dinheiro e criavam uma série de impostos e confiscos. Com essa frente de deputados em Brasília, conseguimos fazer com que o Governo não tome medidas que atrapalhem, como ocorria no passado. Diante disso, estamos passando por um período próspero em alguns setores, principalmente a soja, com a possibilidade muito grande disso permanecer por dois ou três anos, desde que o Governo não ponha o dedo. Já está se falando em imposto de importação...
JC - Qual é o principal problema da agricultura? Lima Verde - Produzir é a coisa mais fácil do mundo. Você reverte de 100 milhões de toneladas para 50 milhões, de 50 milhões para 150 milhões, tudo na produção. O grande problema é a comercialização, a venda. Felizmente, atualmente conseguimos aliar uma produção boa desses produtos a preços bons internacionalmente.
JC - O Brasil é o maior produtor de soja do mundo? Lima Verde - Atualmente é, com perspectiva de aumentar muito. Daqui a pouco o plantio vai chegar à nossa região. Já estão plantando soja em Garça. Há o risco de acontecer o mesmo que houve com o café há 50 anos atrás: uma monocultura, com todo mundo correndo para a soja. As perspectivas para a soja e a cana-de-açúcar são ótimas. Quem tem condição de plantar está plantando e ganhando dinheiro.
JC - A agricultura impulsiona a balança comercial brasileira mais do que outros setores? Lima Verde - Agora sim. O grande problema é que, socialmente, ela acaba com o trabalho no campo. Uma plantação de soja, por exemplo, não precisa mais do que uma pessoa para conduzir a máquina, O processo é todo mecanizado, a soja quase não tem mão-de-obra, diferente do plantio do café e das frutas. Nós vamos chegar a uma fase em que tudo vai ser mecanizado e a parte cultural vai ser toda abrangida quimicamente, com herbicidas, com os transgênicos.
JC - O fato da agricultura passar por uma boa fase tem feito com que os agricultores se sintam mais orgulhosos de sua atividade? Lima Verde - Sim, o agricultor está com o seu ego muito mais fortalecido do que estava no passado, quando a gente era desconhecido. Mas só se fala do programa de marketing do Governo, muito mais do que problemas com MST ou reforma agrária, que são algumas coisas que também não vão acabar porque entraram dentro da atividade brasileira.
JC - Como o senhor vê a questão do MST? Lima Verde - O assentamento não resolve nada. Você chegar para o camarada e dar um pedaço de terra e só e a mesma coisa de dar um apartamento no quinto andar para uma pessoa e não dar mais nada. Então ele fica sem água, se luz e não tem dinheiro para fazer nada. O que pode virar esse lugar? É a mesma coisa. Os bancos estão cada vez mais seletivos na hora de emprestar dinheiro. Imagine um camarada que já não tem dinheiro, como ele vai chegar ao banco e pedir um empréstimo? Ele não tem nem como negociar com um gerente. Então o Governo fala muito em assentar, mas isso não resolve nada. Os programas que o Governo faz de financiamento são insipientes. É extremamente complicado e há quantos anos ouvimos essa história? O MST ocupa um lugar, ocupa outro, mas isso é rotina, não muda nada o quadro econômico ou social do País. Eu acho que isso vai continuar. O MST não vai acabar e os governos vão dar cada vez mais terras. Se não for criada uma estrutura paralela de financiamento, vai continuar complicado. É um mal com o qual teremos que conviver.
JC - Os transgênicos vão deixar de gerar polêmica algum dia? Lima Verde - A gente não pode ir contra a ciência. Hoje, nos Estados Unidos toda soja produzida é transgênica, na Europa também. O progresso da ciência é inevitável. Daqui a pouco a gente vai ter alimentos que servirão para combater uma série de coisas. Você vai ter uma soja com dose de insulina que previne a diabetes. Você paralisar esse tipo de avanço por causa de monopólio ou qualquer outro argumento é andar pra trás. Daqui há alguns anos vamos dar risada desse assunto. Quando inventaram a penicilina, o pessoal disse que ela poderia causar um monte de problemas. Imagine se esse pessoal tivesse sido ouvido? É a mesma coisa dos agrotóxicos. Se não tivéssemos agrotóxicos o mundo estaria passando fome porque eles aumentam a produtividade em quatro ou cinco vezes. É muito bonito o produto natural, mas como quantidade... Não adianta lutar contra o caminho natural da ciência.
JC - Os mercados que exigem produtos 100% naturais não são o suficiente para estimular o plantio sem agrotóxicos ou transgênicos? Lima Verde - Esses mercados existem, mas são pequenos. O produto natural é muito caro porque é produzido em pequena quantidade. Esses mercados vão existir sempre, mas vão ser nichos, nunca os países vão ter produtos só naturais. Isso contradiz tudo o que você pode fazer em termos de produção. Não há como evitar os transgênicos. O Governo não tem condições de fiscalizar o uso de sementes. E a grande vantagem dos transgênicos não é quantidade de produção - que é a mesma - , é o custo, que fica mais barato.
JC - Até que ponto o protecionismo de outros países atrapalha o Brasil? Lima Verde - Existe uma demagogia danada quando se fala de protecionismo. A gente não pode esperar que a população americana fique com pena dos agricultores brasileiros. Isso não acontece só na agricultura. Essa semana teve a história do aço. É inútil reclamar sobre os subsídios que os países dão para os agricultores na Europa, por exemplo. É irreversível. Eles vão continuar dando e a opinião pública aceita. A gente achar que os outros países vão ficar com pena de nós porque estamos vendendo por menos, é inútil. Eles (os países) não estão ligando pra nada, só para o bem-estar do seu povo. Essa é a maneira que eles pensam e eu queria que fosse assim aqui também. Cada um defende o seu. A gente fica perdendo tempo em cima de alguns assuntos que talvez nem sejam resolvidos nessa geração. O comércio mundial é tirano. Quem pode mais chora menos e o Brasil já fez isso quando era o maior produtor de café do mundo. A gente determinava o que ia ser feito.
JC - Por que a agricultura não se desenvolveu tanto quanto poderia em Bauru? Lima Verde - Em Bauru a gente nunca teve um prefeito que desse mais atenção à agricultura por causa da cultura urbana que a cidade tem. Não se fala em município nas cidades grandes, fala-se apenas da cidade. Aqui só se fala de indústria e comércio, mas há um potencial muito grande para se produzir e ajudar esses setores: laranja, por exemplo. Existem alguns estudos que dizem que Bauru era a região mais propícia para o plantio de cítricos por causa do clima. O que acontece? Para ter a produção você precisa de uma indústria. E como se faz isso? Com a parte política trabalhando para isso. Nesse aspecto nós nos sentimos muito frustrados. Não temos tido sucesso nesse sentido, principalmente agora quando não temos mais contatos na Câmara Federal. Então existe esse vazio, não temos um canal que nos ajude. Se existisse uma vontade, devido a todas as vantagens que Bauru tem como centro de uma série de coisas, se houvesse uma cultura não só urbana, a cidade poderia ser um pólo da agroindústria. Muito poucos lugares no Brasil têm tantas condições como Bauru. Se aqui na cidade nós tivéssemos três ou quatro vereadores e um prefeito que tivesse simpatia pelo meio rural, de uns anos pra cá já teríamos uma situação completamente diferente.