Não gosto de John Lennon. Não sei dizer direito por que. Pode ser a cara de nerd, os óculos redondos que acabaram virando uma marca registrada, aquela mulher horrorosa pendurada do seu lado... Várias vezes tentei gostar do cara, mas os primeiros acordes da (para mim) insuportável “Imagine” repetidos à exaustão quando se fala de Lennon nunca deixaram.
Não questiono o seu talento musical, claro. Só acho que o fato de ter sido assassinado superou toda sua obra. Lennon virou de uma hora pra outra o profeta de uma geração, o campeão da paz, um gênio, um santo. Esse fanatismo (que também acontece com Elvis, Kurt Cobain e Raul Seixas, entre outros) me incomoda. Na minha opinião, fora dos estúdios, Lennon não passou de um demagogo que, se não tivesse sido assassinado, estaria vivendo da fama dos Beatles, separado de Yoko e testemunhando a infrutífera carreira musical dos filhos e o aumento do prestígio de seu ex-parceiro McCartney, este sim genial.
Esse histórico particular não me impediu de curtir o tributo a John Lennon que a banda Rubber Soul realizou na última quinta-feira. Com o Teatro Municipal literalmente lotado, o grupo bauruense provou que para atrair público, durante a semana, num espetáculo pago, basta fazer um trabalho de real qualidade. Não é exagero dizer que, hoje, a Rubber Soul conseguiria lotar qualquer casa noturna de Bauru e região (felizmente, eles têm a intenção de realizar novamente o tributo se houver um espaço).
Ter o seu nome associado ao Beatles é óbvio que ajuda, como disse o melhor guitarrista em atividade na cidade, Marco Zambon, no show: “É mais difícil encontrar alguém que não goste dos Beatles do que quem goste”. Mas essa “ajuda” é um risco: se o som não for bom, a banda fica com os dias contados. Os fãs são exigentes e não aceitam qualquer coisa.
Nesse aspecto a Rubber Soul não tem o que temer. Perfeccionistas ao extremo, os músicos não deixam nada a dever às grandes bandas covers dos Beatles do País. Com uma vantagem: eles não se fantasiam de Paul, John, George e Ringo, nem falam em inglês “britânico” entre as músicas insultando a platéia. Seus integrantes são cinco instrumentistas superiores que são loucos pelo som dos quatro ingleses e por isso respeitam sua obra.
No show de quinta-feira eles estava visivelmente nervosos, o que é perfeitamente compreensível depois de tanto tempo de ensaio e elaboração. Como estava previsto, a exibição foi além da música.
Com um cenário simples, mas criativo, que destacava a famosa figura de Lennon estampada no cartaz do filme “Imagine”, salientado por uma iluminação o tempo todo perfeita, a banda tocou clássicos dos Beatles e canções de sucesso de Lennon com a competência de sempre.
O público, mesmo tendo que agüentar um calor insuportável (e inexplicável) no teatro, testemunhou interpretações inspiradíssimas de, entre outras, “Come Together”, “Jealous Guy” e “Slippin’ and Slidin’”, esta última com a participação mais que especial de Paulo Villaça no saxofone.
O grande trunfo do espetáculo, porém, foi a tela montada ao lado do palco que, em alguns momentos (que pena que não foi o tempo todo!), mostrou imagens dos Beatles e de Lennon em ordem cronológica, construindo um painel do quarteto inglês. O recurso, aliado à técnica dos músicos, gerou momentos de sublime interação nas canções “Jealous Guy” e “Happy Xmas” que emocionaram a todos.
O público deixou o teatro/sauna municipal com um sorriso enorme de satisfação no rosto. Com certeza, muitas dessas pessoas, em casa, ouviram os velhos discos dos Beatles nos dias seguintes.
Como o grande barato da vida é evoluir e, assim, com o passar do tempo ter a capacidade de observar as coisas sob outros pontos de vista, espero um dia poder analisar John Lennon de outra forma. O que importa nesse momento é que, qualquer que esta outra forma, o que houver de positivo nela será graças à bela homenagem dos “cinco rapazes” de Bauru para quem o sonho está só começando.