09 de julho de 2026
Articulistas

O início sempre difícil


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Algum chinês sabido falou que longo percurso começa com o primeiro passo. O comando nacional do PSDB foi renovado. Recompôs suas forças internas. José Serra foi eleito por consenso para a presidência nacional do partido. Testemunha grande acordo e a benção do padroeiro Fernando Henrique. O PSDB definiu, ainda, as intenções de aproximação política com o PFL. Recompor o núcleo das alianças que garantiram vitórias eleitorais. Tem ainda cara feia. Mas os abraços voltaram a ser apertados.

Fernando Henrique havia recomendado prudência. Nada de arrufos oposicionistas no início do governo Lula. A política dos eleitos deveria ter tempo razoável para mostrar competência, para impor comando à máquina gerencial da nação, para montar táticas e estratégias de governo. Quem é do ramo sabe que oposições excitadas, que batem sem parar, que criticam todo o tempo, só alertam governos inteligentes.

FHC, neste ano, pouco falou. Um discreto comentário, aqui. Uma observação, acolá. Parecia que o Palácio do Planalto desabava. Provocava excitação imediata no governo. Zé Genoíno arrancava a barba. Zé Dirceu chegava a desaforos e a desculpas. Lula, nervoso, exagerava nos palanques. Muita bronca por quase nada.

Debates organizados pelo Instituo Sérgio Mota, sob a presidência do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, reuniu intelectuais, parlamentares e economistas. José Arthur Giannotti, filósofo da USP, especulou que os tucanos precisam combater no terreno simbólico. José Carlos Aleluia, o líder do PFL na Câmara dos Deputados, foi claro e pragmático: “Bater nas contradições do PT mostra resultados. Estamos preocupados demais com a governabilidade. Na oposição, a tática deve ser a demolição. Tática de construção é para quem é governo.” Utopia ou pancadaria?

O debate sobre a economia reuniu uma seleta gama de economistas. José Roberto Mendonça resumiu as teses propostas. A estabilidade não leva o país ao desenvolvimento. O país crescerá se a exportação for prioridade absoluta. Armadilha fiscal é a combinação de taxas de juros altas, com o conseqüente crescimento da dívida pública, e a necessidade de superávit fiscal. A economia poderá crescer mas não será um crescimento sustentado.

Teses de tucanos que, no governo Fernando Henrique, atacaram a política de Malan. Criticam a adoção pelo PT do chamado malanismo. Estes tucanos estão próximos de Serra. Luiz Mendonça de Barros é enfático: “Mais dia, menos dia, vamos ter de enterrar esse cadáver, não tem jeito”. Os tucanos poderão, então, contestar com firmeza a adoção do defunto pelo o governo Lula. Disputa de poder, onde interessa: sobre os rumos da economia. Custódio Matos, deputado federal (PSDB-MG), futuro líder da bancada tucana na Câmara, pende para esta vertente crítica: “Lula é mais do que o PT. O PT do Lula nunca foi um partido de esquerda, mas de negociações pragmáticas. Lula é uma benção para o establishment, em especial para o financeiro”.

Muitos tucanos acham que a crítica ao malanismo é contraditória diante da opinião pública. Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, acha que ao invés de renegar a política econômica vale mais a pena ressaltar a contradição do PT por tê-la adotado. Fazer oposição por aí é renegar o governo Fernando Henrique. Arnaldo Madeira, secretário de Alckmin, pondera: “está é a questão central que temos que superar, a meu ver, ainda levaremos tempo para isso”.

Os tucanos estão divididos quanto à questão da construção de uma nova alternativa de política econômica. Vão esperar a volta de Fernando Henrique ao comando do debate.

O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.