Com 40 anos de idade, Antônio Marcos Alavarce, o Charutinho, é palhaço há quase três décadas e um dos poucos profissionais efetivamente formados no circo que continua em atividade da cidade. Atuando ao lado de seu filho Tiago, de 16 anos, o palhaço Titi, Alavarce anima festas e, eventualmente, faz temporadas em alguns circos colocando em prática toda a sua habilidade de tirar os riso das pessoas. O Dia do Palhaço comemorado hoje para ele poderia ser bem melhor se o mundo do circo não estivesse em extinção. Na entrevista a seguir, Alavarce fala sobre sua carreira e como é ser palhaço hoje em dia.
Jornal da Cidade - Como você virou palhaço? Antônio Marcos Alavarce - Comecei com o meu pai, que foi de teatro, de circo, locutor de parque de diversões... Comecei com ele me contando histórias. Depois veio o circo no bairro, gostei e, nas horas de folga, comecei no circo. Deixei o colegial para trabalhar no Circo de Moscou. Fiz uma escolha e não me arrependi. Eu tinha 16 ou 17 anos e já tinha feito muita coisa, muito circo teatro.
JC - Quando o circo começou a perder força? Alavarce - O circo está caindo, mas já tive aula com professores de 70 anos de idade que diziam que o circo na juventude deles já era fraco. O circo há muito tempo já não é tão forte. Depois da televisão a situação piorou. Mas depende do lugar. No ano passado Bauru recebeu um circo e depois mandou ele embora por causa da lei que os vereadores aprovaram. O circo rodou algumas cidades da região e não deu certo. Em Piraju foi um sucesso. Ficaram mil pessoas pra fora do circo, quer dizer, no mesmo Estado existe essa diferença. O diretor do circo disse que precisaria de mais quatro cidades como Piraju para não ficar no prejuízo.
JC - As novas gerações não vão gostar de circo? Alavarce - Eles vão gostar de Internet, vídeo game, espada que arranca pescoço, sangue, sexo. Mas o circo sobrevive porque é mágico. E no circo o palhaço é artista, há um respeito muito grande.
JC - E fora? Alavarce - Aqui fora não. O desempregado, aquele que gosta de criança, ou até aquele professor que ganha mal, compra uma fantasia de palhaço e vai animar festa. Só que também dura dois meses, três meses, depois acaba. Esse pessoal acaba até me ajudando porque as pessoas percebem quem é palhaço mesmo. Eu não desprezo quem faz isso, todo mundo tem o direito de ganhar a vida como quiser, eles estão fazendo um trabalho honesto. Mas palhaço é outra coisa.
JC - O palhaço já nasce palhaço? Alavarce - Já nasce sim. É claro que existe a técnica, mas quem tem o dom tem o dom. O palhaço tira o riso de 2 mil pessoas e de 50. O palhaço não é um ator, ele nasce palhaço. O ator se transforma. O ator pode viver um palhaço, mas um palhaço pode não viver um ator. Uma vez conheci um palhaço que foi colocado para fazer a “Paixão de Cristo” no circo. Ele fazia um dos ladrões na cruz e tirou riso do público só com a sua cara. Ele não era ator, era palhaço. Palhaço é assim, de qualquer coisa, em qualquer situação ele tira o riso. Muitas vezes estudamos para isso. Uma piada às vezes é engraçada pela expressão facial do palhaço, pelo andar. São coisas que exigem técnica e experiência, o tempo certo. É muito delicado. Palhaço é cultura, mas muitas pessoas não vêem assim.
JC - O seu filho nasceu palhaço? Alavarce - Nasceu, com sete meses de idade eu batizei ele como palhaço no circo. Com dois anos de idade ele já tinha cachê. Hoje ele faz mágica e é palhaço. Ele tem 16 anos e disse que quando terminar o colegial vai de dedicar somente a isso para a arte não morrer. Ele vai continuar.
JC - Como você se sente nessa data em que se comemora o Dia do Palhaço com as coisas nessa situação? Alavarce - Eu continuo trabalhando, animando festas, mas a situação do palhaço em geral é ruim. O palhaço está morrendo, não há mais tantos circos... O palhaço é a figura central do circo. Ele entrou no antigo circo de cavalinhos para animar o público entre um número e outro. Com o tempo o palhaço virou a figura central. O circo sem palhaço é um circo em preto e branco.