08 de julho de 2026
Bairros

Desemprego restringe ação da Sebes

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Enquanto Maria de Fátima cozinhava ontem à tarde o arroz doado pela vizinha para alimentar seus filhos que vivem no Parque Real, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) iniciava uma audiência pública na Câmara Municipal para discutir a atuação da pasta neste ano. O desemprego, que está levando a família a viver de doações, é o principal problema do público atendido pela pasta e que, apesar dos programas, não consegue sair do estado de miséria, diz a titular da secretaria, Darlene Martin Tendolo.

“As pessoas economicamente produtivas precisam de emprego e, para que isso aconteça, o País precisa crescer novamente. A questão econômica pode inviabilizar qualquer iniciativa social. Precisamos de uma ação continuada, que não depende só da Sebes”, explicou a titular da pasta, no final da audiência.

A situação de Maria de Fátima Ferreira Alves de Matos justifica a preocupação da secretária, que não conseguiu afugentar a fome da periferia. Anteontem, o filho de 7 meses da moradora do Parque Real se alimentou basicamente com água e açúcar, durante o dia todo.

“Participo do programa municipal Nutribebê. Recebo leite e sopa, mas dá para poucos dias porque tenho outra criança de 4 anos (para alimentar). Estou com os armários (de comida) vazios. Não tenho como sair para trabalhar por causa das crianças e meu filho de 22 anos está parado”, lamenta Maria de Fátima.

Ontem, o rapaz saiu para procurar emprego e voltou mais uma vez sem perspectivas. Pelo menos, chegou a tempo de comer o arroz doado pela vizinha, que também forneceu feijão e chuchu para a refeição do dia anterior. A família integra as estatísticas da Defesa Civil que apontam 13 a 16 mil pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza em Bauru, dependendo das ações da Sebes.

“Eles têm procurado auxílio na prefeitura, mas não adianta. Às vezes, conseguem cesta básica, mas o problema é resolvido por pouco tempo. Só com trabalho a situação fica um pouco melhor. No meu caso, meu marido está trabalhando”, conta Patrícia Gersino Roque, que vem auxiliando a vizinha. Para ela, outros moradores do bairro também deve passar fome.

Para amenizar a situação dessa parcela da população, a Sebes conta com uma previsão orçamentária de R$ 6,8 milhões para o próximo ano. “Ainda é cedo para avaliar o orçamento. Dependendo da necessidade e da arrecadação, o Executivo pode liberar mais”, pondera Tendolo.

Porém, para o presidente da Associação das Entidades Sociais e de Promoção Social, Paulo Sergio Canalli, que participou da audiência pública, o valor é muito baixo. Na opinião dele, a administração municipal não terá como atender a todos os programas sociais já em andamento.

“A Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) deveria trabalhar em conjunto com outras secretarias, como a do Desenvolvimento Econômico”, destaca.

Já o responsável pela pasta, Domingos Malandrino, aposta no aumento das exportações dos produtos bauruenses para reverter a situação de desemprego.

“A idéia é participar de missões internacionais que venham ao Brasil através do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) visando aumentar as exportações dos produtos daqui”, diz.

Ele também pretende aumentar a participação das universidades de modo que elas possam agregar valor aos processos produtivos e aos produtos produzidos na cidade de modo a melhorar a renda das empresas e conseqüentemente incentivar a geração de empregos.

Drible

A fim de complementar o projeto do colega e driblar a dificuldade de recolocação do mercado de trabalho, a Sebes pretende intensificar os investimentos nos programas de geração de renda e na capacitação para o trabalho. Também pretende ampliar a Central de Reciclagem de Bauru.

“Estima-se que o lixo do Brasil seja um dos mais ricos do mundo. Além disso, as pessoas que participaram direitinho dos Núcleos de Apoio Sócio-Familiar (NAF), estão expondo (artesanato) no shopping e vendendo para lojas”, comenta a titular da Sebes.

Ela também pretende contar com o cadastro único das famílias que ganham até meio salário mínimo (R$ 120,00) para mapear a situação da cidade. As pessoas que se enquadram nessa faixa de renda podem solicitar até seis programas sociais do governo federal: Bolsa-Alimentação, Bolsa-Escola, Erradicação do Trabalho Infantil, Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, Auxílio-Gás e Fome Zero.

O registro dessas famílias são realizados em creches, regionais administrativas e programais sociais existentes na cidade.

“Não existe violência maior do que passar fome. Como o governo federal disse que vai investir R$ 53 bilhões no combate à violência, imagino que a situação em 2004 seja melhor”, conclui a secretária.