08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ensino fundamental


| Tempo de leitura: 4 min

Há poucos dias a cidade ergueu-se em alvíssaras com o público anunciar de mais uma faculdade instalando-se em Bauru. Segundo a nota em destaque nos jornais, a cidade estaria alcançando a sua sexta ou sétima faculdade. E com isto passaria a ombrear-se com outras de maior tamanho, desenvolvimento e tradição. Obviamente nenhum juízo de valor a respeito da qualidade do ensino que se pratica na urbe, da esmagadora preponderância das escolas superiores particulares, do preço que se cobra dos incautos estudantes e, maldição das maldições, da perspectiva próxima a zero destas centenas (quiçá milhares) de estudantes “descarregados” após quatro ou cinco anos, no mercado de trabalho. Francamente, temos algo a comemorar?

Por outro lado, insuspeitos dados do Censo de 2000 recentemente divulgados pelo IBGE (apesar da insuportável mora em fazê-lo), informam que cerca de 48% dos brasileiros não têm o curso fundamental e, boa parte deste percentual, apenas desenha algumas garatujas a que a piedade aceita reconhecer como nome. Também estes, tanto quanto os seus irmãos de infortúnio (porém titulados como bacharéis em alguma coisa), sem um emprego decente que lhes permita ao menos a sobrevivência mais ou menos digna.

Diz mais o IBGE (e lastima, talvez ironicamente, dado que a ironia quanto às questões sociais é a marca do atual governo) que são cerca de 6% os que têm curso superior no Brasil.

Eu prefiro muito mais lamentar os 48% sem o curso fundamental, do que os 94% sem o curso superior. Fosse diferente, neste injusto (até Fernando Henrique) e também desesperançado país (após a assunção do deslumbrado Lula), eu não teria minha Vanessa (que está entre os 6% de curso superior) tão longe e outros pais não teriam também suas Vanessas a milhares de quilômetros de distância, buscando no estrangeiro otrabalho que não lhes é permitido aqui.

Sou um apaixonado pelo conhecimento. Continuo ainda a pesquisar e estudar coisas novas, mesmo depois de aposentado e com meus 55 anos (mais no fim do que no começo). Mas não tenho paciência para empulhações de nenhuma espécie. Penso que o grande erro foi quando o ensino no Brasil virou também produto de marketing. Falando nisso, por que será que as nossas televisões estão abarrotadas com anúncios publicitários de faculdades, universidades, cursos, etc ? Porque isto dá muito dinheiro, para quem vende ensino como vende sabonete, absorvente ou papel higiênico e também para quem veicula este injusto comércio.

Não há a menor vantagem de termos um grande percentual de pessoas qualificadas se não há emprego suficiente para a grande maioria delas. E, não me venham com o blá-blá-blá das “competências”, “empregabilidade”, “habilidades”, “motivação”, “empoderamento” (tradução estúpida de “empowerment”), ISO isso, ISO aquilo e outros vocábulos vazios que só serviram nos últimos anos para engordar as contas bancárias de alguns profissionais (auto-intitulados “consultores”) que decoram meia dúzia de frases de efeito para emocionar as platéias e depois se vão, deixando o abacaxi no colo do infeliz empresário.

Claro que a primeira receita que deveria ser prescrita a este país, seria a conhecida vergonha na cara. Depois a seriedade em tudo o que se faz. Depois o banimento do imediatismo ou das soluções mágicas. Mas, acima de tudo, necessário um sério compromisso dos governos de todos os níveis em relação aos brasileiros, compromisso este que fosse além das próximas eleições, ou do locupletamento muitas vezes criminoso dos agentes públicos com a arrecadação oferecida por todos nós.

E não é só na educação que se observam estes crimes. A atual discussão da taxa para os bombeiros e da que foi aprovada para iluminação pública, são um retrato da baixa qualidade do nosso Executivo, muito bem apoiado pelo Legislativo no escorchamento que querem impingir à nossa população. Mas isto é assunto para outro texto, se o JC me permitir.

Assim deixo de público meu repúdio ao estardalhaço que se fez com a criação de nova faculdade em Bauru, bem como minha justa e sincera preocupação pelo emprego futuro de nossos filhos e dos filhos de nossos filhos, num mundo, onde os “sábios consultores” vivem alardeando que o emprego acabou, que todos precisam virar micro-empresários, que é preciso falar dois ou três idiomas, que é preciso saber plantar bananeira, que é preciso “encantar” o entrevistador, que é preciso ser um “expert” em informática, que é preciso saber competir, etc, etc, etc.

Por estas e outras, eleitor de Lula desde seu ingresso na vida pública, ando realmente injuriado com seu pífio governo, o que me leva a reconhecer que Heloísa Helena não é assim tão doida quanto parece.

Atenciosamente.

Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799