09 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Padre Cícero e a ecologia


| Tempo de leitura: 2 min

Incrédulo e apreensivo, fiquei sabendo que o nome do padre Cícero foi patenteado e que seu uso estará sujeito à negociação financeira com os detentores desse direito. Imaginem que no Nordeste, desde pequenos negócios até grandes atividades, têm recebido o nome desse padre.

Seu nome significa benção e proteção ao povo daquela região. Esse nome também inspirou o de outras pessoas e muitas crianças foram assim batizadas. Ao padre Cícero, os católicos devotam respeito.

Minha mulher, Janira, tanto no seu mestrado quanto no doutorado, trabalhou em torno da produção artística de Cícero Dias, pintor pernambucano falecido há pouco tempo. Dias era filho do senhor do engenho Jundyá, em Escada, pequena cidade onde nasceu. Sua mãe era neta do barão de Contendas. Seu prenome foi dado em homenagem a seu padrinho: padre Cícero Romão Batista.

Controvertido, político ferrenhamente ligado ao coronelismo nordestino para uns, santo e milagroso para outros, padre Cícero tornou-se uma lenda reverenciada pelos necessitados. Sua monumental estátua construída em Juazeiro do Norte efetivou-se num atraente centro de romaria.

Recentemente, quem assistiu no cinema o belo filme “O Caminho Das Nuvens”, com Wagner Moura e Cláudia Abreu e direção de Vicente Amorim, pôde ver a família de retirantes, em Juazeiro do Norte, envolverem-se no sagrado ambiente que perpetua a presença mística e simbólica desse padre.

São poucos os que conhecem um outro papel por ele desempenhado: o de conselheiro ecológico. Quem me forneceu essa pista foi o padre Carlos Pessoa, da Vila Falcão.

Eis alguns dos conselhos de padre Cícero:

• Não derrube o mato, pois é ele que atrai a chuva;

• Não toque fogo na roça, senão a terra fica cada vez mais fraca;

• Não caçar por brincadeira, mas só para comer;

• Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;

• Não plante de serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé, para que a água não arraste a terra e não se perca a sua riqueza;

• Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta;

• Plante cada vez que puder, um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;

• Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga com a maniçoba, a favela e a jurema, elas podem ajudar você a conviver com a seca;

• Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar a água da chuva.

Alertava o padre que se o sertanejo seguisse a estes conselhos, a seca iria aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo teria sempre o que comer. Mas, se não obedecesse, dentro de pouco tempo o sertão todo iria virar um deserto só.

Pelas notícias que temos do agreste, verifica-se que os seus conselhos foram muito pouco seguidos.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.