Quando eram adolescentes, os amigos Norton Ferreira de Souza e Sérgio Nogueira de Almeida Gaspar sonhavam em viajar de moto até o gélido Alaska. Entretanto, como todo devaneio juvenil não resiste à razão, o destino foi abandonado, não a idéia. Já bem “crescidinhos”, eles efetuaram uma aventura dos sonhos: chegar à mítica Machu Picchu, a cidade perdida da civilização inca.
A viagem, apelidada de “Zuando nos Andes” em alusão ao fato de Norton e Gaspar pertencerem ao motoclube botucatuense Zuando, durou exatos 38 dias e percorreu cerca de 12.500 quilômetros divididos entre estradas, cidades, vilarejos e belas paisagens naturais do Uruguai, Argentina, Chile e Peru.
Para realizá-la nos meses de setembro e outubro deste ano, eles obedeceram a um rigoroso planejamento, que começou a ser traçado há mais de um ano com a compra de acessórios e a preparação das motocicletas utilizadas na aventura, duas Falcon. “Compramos pneus novos especiais para todo terreno e injetamos um líqüido especial antifuros”, conta Norton.
Eles também pesquisaram as melhores rotas lendo centenas de publicações turísticas especializadas e trocando experiências com outros motociclistas nos diversos encontros do gênero que são assíduos freqüentadores. Após tudo isto, ambos consideraram-se prontos para “cair” na estrada em direção a Machu Picchu. “Queríamos conhecê-la, pois há todo um misticismo em torno dela”, justifica Norton.
Desta forma, em 1.º de outubro, Norton saiu de Bauru, onde reside há cinco anos, em direção a Botucatu para encontrar Gaspar e iniciarem para valer a aventura. Da cidade vizinha, os amigos partiram para o Sul do Brasil em direção ao Uruguai, o primeiro país estrangeiro da rota que surpreendeu ambos.
“Ele costuma ser esquecido pela gente, mas é uma nação que demonstrou ser organizada, estruturada e com um povo hospitaleiro”, conta Norton. Das terras uruguaias os botucatuenses seguiram, à Argentina, onde passaram pelo Parque Nacional de Aconcágua, famoso pelos seus picos nevados e, na seqüência, pelo Chile.
E foi justamente neste país que os motociclistas encararam um dos trechos mais incríveis: percorreram cerca de 2 mil dos 3 mil quilômetros da chamada rota Panamericana, que corta o Chile até o Peru e passa pelo deserto mais seco do mundo, o Atacama. Viajar por ele foi um dos momentos mais marcantes para Gaspar. “É impressionante. Não há o menor sinal de vida e você não vê um passarinho ou um inseto”, ressalta.
E foi pela Panamericana, após darem um “pulinho” na cidade de San Pedro de Atacama, que os motociclistas chegaram ao Peru. Apesar de terem se aproximado do objetivo de sua viagem - Machu Picchu -, a decadência do país chamou a atenção de Norton e Gaspar.
“Fiquei até com dó. As estradas são boas, mas havia cidades sem banheiros e até sem água. Sem dúvida, foi o fundo do poço da aventura, pois sofremos com a falta de estrutura peruana”, diz Norton.
Mas logo vieram as recompensas. A primeira foi conhecer o Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo, com uma superfície de 8.560 quilômetros quadrados e profundidade máxima de 227 metros. Norton conta que, assim como Machu Picchu, também é uma paisagem cercada de lendas. “Dizem que ele é a prova da existência da cidade aquática de Atlântida”, conta.
A próxima recompensa era a mais aguardada. Após 26 dias na estrada, os botucatuenses finalmente chegaram a Machu Picchu. A única decepção foi não poder ter chegado até a cidade de moto, em razão dos rigores turísticos do país. “Fomos de van com um grupo”, lembra Norton.
Apesar disso, os momentos no local foram inesquecíveis. “É a oportunidade que tivemos para ver de perto um pouco da história mundial”, diz ele. A conquista da meta da viagem mereceu até uma comemoração especial: uma cervejinha de um litro vendida em um vilarejo considerado a sede administrativa de Machu Picchu. “A cerveja não era lá aquelas coisas, mas valeu para marcar a ocasião”, ressalta Gaspar.
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Dureza e reflexão
Como nem tudo é um “mar de rosas”, o retorno de Machu Picchu foi eleito pelos motociclistas o momento mais difícil de toda viagem. Tudo porque Norton e Gaspar precisaram encarar um trecho de 720 quilômetros de estradas de terra, pedras, barro e, ainda, cortadas por rios. “Ali começou nossa verdadeira aventura nos Andes”, define Gaspar.
Depois de superar os desafios impostos pelo caminho, em um percurso que os motociclistas demoraram quatro dias para cumprir, Norton afirma ter aprendido uma lição. “A natureza é soberana e deve ser respeitada, pois estando lá você se sente pequeno diante da imensidão das paisagens. É um recado que ela te passa para ser humilde”, considera.
Apesar das dificuldades, Norton frisa que o esforço valeu a pena. “Você tem tempo de sobra para refletir e fazer um verdadeiro balanço da vida. Saímos sabendo que passaríamos por momentos complicados, mas acima de tudo fomos para lá para andarmos de moto”, resume.
“Como motociclista, foi a realização de um sonho. Já fiz várias viagens longas e internacionais, mas esta foi a que mais curti, me envoli e me programei antecipadamente”, destaca Gaspar. “Para quem gosta de moto, nosso roteiro foi fantástico, pois enfrentamos as mais variadas e adversas condições climáticas. Pessoalmente, foi a maior curtição”, acrescenta Norton.
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Mistério histórico
Machu Picchu fica no Peru, a 112 quilômetros da Capital Cuzco e a 2.430 metros acima do nível do mar, cercada por duas montanhas: Machu Picchu, ou Montanha Velha, e Huayna Picchu, Montanha Jovem, em uma região da Cordilheira dos Andes onde começa a Floresta Amazônica peruana.
Considerada patrimônio cultural da humanidade, localiza-se nos limites do “Santuário Histórico de Machu Picchu”, unidade de conservação criada pelo governo peruano, em 1981, com a finalidade de preservar os recursos naturais e culturais de grande valor científico e histórico.
Estima-se que ela tenha ficado escondida por três séculos. Machu Picchu foi descoberta, oficialmente, no dia 24 de julho de 1911, pelo historiador americano Hiram Bingham, que fazia pesquisas no Peru atrás de outra cidade perdida: “Vilcabamba”, que teria sido o último esconderijo do imperador inca antes da conquista pelos espanhóis.
Machu Picchu possui uma grande quantidade de templos reconhecíveis pela qualidade das obras e pelo acabamento rebuscado. Todas as pedras da cidade são originais e 60% delas estão intactas, tendo resistido a pelo menos dois grandes terremotos, o de 1650 e o de 1950.
E, até hoje, Machu Picchu dá margem a muitas indagações. Para muitos, a cidade foi um sagrado e secreto centro religioso e de estudos em diversas áreas de conhecimento, como medicina, astronomia, matemática, agronomia, arquitetura, engenharia e outras que se mesclavam com a visão religiosa que era o sustentáculo da cultura inca.
Outra teoria é que a cidade teria sido habitada por sacerdotisas, bruxas e feiticeiras, temidas pela comunidade por causa dos poderes sobrenaturais e teriam sido exterminadas por uma catástrofe natural que, para eles, era sobrenatural.
Uma violenta tempestade teria castigado a cidade e os raios teriam sidos interpretados como o presságio de que ela deveria ser abandonada e condenada como maldita. Assim fizeram um grande êxodo. (Da Redação)