08 de julho de 2026
Auto Mercado

Bauru é destaque em concurso Volks

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

A sexta edição do concurso nacional de design da Volkswagen, promovido anualmente pela montadora com estudantes de todo o País, consolidou a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru como uma das melhores do ramo no Brasil. Além ter classificado cinco - dos dez selecionados - à final da competição, a instituição local teve dois - dos três possíveis - alunos escolhidos entre os vencedores.

O evento, realizado semana passada na Capital paulista e acompanhado pelo AutoMercado&Cia, foi inesquecível para os unespianos bauruenses Gustavo Souza Motta e Yuri Hayek, que juntamente com o jovem carioca Marcos Lima Nogueira Costa ganharam o grande prêmio do concurso: o direito de estagiar, durante o ano de 2004, no Centro de Design da Volkswagen.

Com o tema “Como será o Golf em 2053?”, os universitários construíram uma maquete em escala 1:4 pintada que deveria apresentar suas propostas para interior e exterior do modelo e contextualizá-lo através de projeções tecnológicas, sociais, econômicas e ambientais.

Gustavo obteve uma das vagas com o seu Golf “The Dolphin” (golfinho, em inglês), conceito inspirado na combinação das qualidades - graça, agilidade, beleza e inteligência - do animal que lhe empresta o nome. Já Yuri apostou em um modelo movido a energia solar e Marcos no “Spot”, que discutiu materiais e como a esportividade se apresentará dentro de 50 anos.

Após o anúncio do resultado, os universitários bauruenses, visivelmente emocionados, mal conseguiam falar. Com os olhos marejados, Yuri ressaltou que foi a realização de um sonho. “É o top para a gente que faz design. Acreditamos em nosso potencial, corremos atrás de todo nosso trabalho e, com o aval da Unesp, vencemos”, resumiu.

Igualmente feliz e com ar choroso, Gustavo destacou que entrará em uma nova fase em sua vida. “É um novo momento que ainda não sei ao certo a dimensão que isto terá, mas estou pronto para aproveitá-lo. A hora que a adrenalina baixar vou pensar na melhor maneira de fazer jus a isso tudo que aconteceu aqui”, enfatizou o estudante.

Durante o estágio, os ganhadores vivenciarão o dia-a-dia dos profissionais da área, desde o desenvolvimento de projetos mais simples até a criação de novos conceitos de veículos de âmbito mundial. Em paralelo, terão a oportunidade de desenvolver um projeto para exibí-los na final do próximo concurso.

Qualidade

Além de destacar a importância do evento para a montadora e os alunos, Luiz Alberto Veiga, chefe de Design da Volkswagen, declarou ter-se surpreendido com a qualidade dos projetos apresentados na edição 2003 do concurso. “A cada competição há uma evolução muito grande, mas este ano foi o de melhor nível e o mais difícil para se escolher os premiados “, frisou.

Segundo Veiga, os trabalhos aproximaram-se de níveis internacionais. “Não teria o menor problema em divulgá-los em publicações especializadas estrangeiras, o que vou tentar fazer como em todos os anos”, salientou.

Para o chefe de Design da montadora, o maior apoio das instituições de ensino é uma das razões para o crescimento da qualidade dos projetos. “Elas estão dando suporte de maneira mais efetiva aos alunos, algo que no começo do concurso não existia”, considera Veiga. “O que fazemos aqui deveria ser feito nas universidades para incentivá-los e dar-lhes oportunidade de divulgação”, acrescentou.

O evento contou, ainda, com a participação de mais três universitários da Unesp/Bauru - André Leal da Fonseca, Edgar Tadao Kimura e Thales de Oliveira Arouca -, além de Flavio Maldonado (UniBan/SP); Júnia Cristina Martins (Universidade Estadual de Minas Gerais); Luciano Solera (Faculdade de Tecnologia de Birigüi) e Ronaldo Rios Lopes (Faculdade de Desenho Industrial de Mauá (SP).

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Novo curso?

Participar das finais do concurso de design da Volkswagen e até mesmo ter alunos selecionados para estagiar na montadora já não é novidade para a Unesp bauruense. Isso porque tais resultados já se tornaram tradição do curso de design industrial, pois o retrospecto do mesmo na competição é invejável.

Em todas as edições anteriores, a universidade sempre colocou representantes entre os finalistas e, em duas delas - 1999 e 2000 - os três selecionados para o estágio foram alunos do câmpus local. Para o professor Osmar Vicente Rodrigues, orientador dos universitários bauruenses finalistas, o resultado do concurso 2003 da Volkswagen comprova que o curso unespiano possui vocação para a área automobilística.

Por isso, ele alimenta a expectativa do surgimento de um curso - atualmente inexistente no País - específico para o setor. “Espero que possamos, não apenas em função deste resultado mas também dos outros anos, trabalharmos para melhorarmos ainda mais nosso nível e fazermos que esta vocação transforme-se em um curso de curta duração na área automobilística”, afirma.

E as perspectivas para que tal “sonho” se concretize são reais. Segundo José Carlos Plácido da Silva, diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação de Bauru, atualmente há condições, através de parcerias com as indústrias automobilísticas e empresas que dão suporte para esta área, para a montagem de um curso de especialização em design automobilístico no câmpus Bauru.

Segundo Silva, o resultado alcançado na sexta edição do concurso da Volkswagen credencia a Unesp a almejar tal meta. “É um aval que a comunidade da área de design de automóveis nos passou. Foi uma semente que pode se tornar um curso específico para este ramo e é uma responsabilidade que Bauru deve assumir”, destacou.

Para o diretor, o fato de Bauru estar geograficamente distante das indústrias automobilísticas é outro fato que demonstra a vocação do curso para o setor. “Isso é um estímulo e um compromisso que o curso de desenho industrial deve assumir para dar seqüência e efetivar esta vocação”, finaliza.

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Perfil

Para o chefe de Design da Volkswagen, as escolas do ramo no Brasil ainda “engatinham” quando os assuntos são estrutura e recursos humanos. “Elas têm muito o que evoluir ainda. Sinto falta delas possuírem oficinas mais equipadas e pessoas atuantes na área junto aos alunos. Os professores têm uma função teórica importante, mas os profissionais trazem algo que é insubstituível: a experiência.”

Por isso, e pela inexistência de cursos de design automobilístico no País, Veiga considera que o perfil do designer brasileiro é o de um “doente” pelo que faz. “É aquela pessoa que ama automóveis e se dedica fora do currículo escolar. Mas essa privação de meios acaba sendo benéfica em comparação com um adolescente que pretende seguir a carreira na Europa”, diz.

Veiga explica que, no Velho Continente, se um jovem quiser ser um designer basta ingressar em uma das mais de 400 escolas européias. “Aqui, a pessoa tem poucas instituições à disposição e dependerá muito mais de seu talento e amor pela atividade para tornar-se um profissional do ramo”, compara.

O chefe de Design da Volks acrescenta que as perspectivas de mercado para os designers de automóveis nunca foram otimistas. “Ele sempre foi bastante difícil, mas isso não quer dizer nada”, frisa Veiga. “O Raul Pires, responsável pelo desenho do Bentley cupê, um dos carros mais desejados do mundo, é brasileiro e foi trainee na montadora. Ele é um exemplo que se a pessoa quer se tornar algo, ela vai ser. Basta dedicar-se para isso.”