De acordo com a hematologista Telma Cristina de Freitas, uma única doação de sangue pode beneficiar até quatro pacientes ao mesmo tempo. Isso é possível porque o material coletado é processado e dividido em quatro hemocomponentes: concentrado de hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado.
O concentrado de hemácias é utilizado no tratamento de pessoas que apresentam anemias severas e precisam repor com urgência o número de glóbulos vermelhos (hemácias) do sangue. Eles são responsáveis, principalmente, pelo transporte de oxigênio dos pulmões até as menores células do organismo.
“A anemia severa pode ser causada por hemorragias, déficits nutricionais graves e patologias que reduzem a produção dos glóbulos vermelhos, como leucemia, mielodisplasia, doenças malignas e crônicas”, explica a médica.
Pessoas que têm leucemia também podem precisar de transfusão de plaquetas - componente sangüíneo responsável pela coagulação. A redução destas células pode favorecer a ocorrência de hematomas e hemorragias. “As plaquetas são utilizadas em grande volume para esses pacientes, principalmente na fase da quimioterapia”, salienta Freitas.
O plasma é a parte mais líquida do sangue e contém diversos fatores de proteção. Ele é usado, principalmente, no tratamento das queimaduras, em que a hidratação é fundamental.
“Ele também é usado em pacientes que apresentam déficit de coagulação em que o médico ainda não identificou a causa e em que é preciso oferecer um tratamento rápido ao doente. Quando o profissional identifica a causa, ele pode optar por um medicamento”, comenta.
A quarta fração do sangue, chamada de crioprecipitado, também pode ser usada para repor fatores de coagulação. Segundo a médica, este componente já foi muito utilizado no tratamento da hemofilia, mas, atualmente, seu uso é restrito a situações extremas, como no caso das infecções por meningite.
“Hoje, prefere-se utilizar o crioprecipitado já processado e pasteurizado em laboratórios farmacêuticos. Isso propicia uma diminuição quase integral do risco de transmissão de doenças. O crioprecipitado não processado só é usado quando você precisa de um volume muito grande da substância”, explica.
Passo-a-passo
Freitas explica que, para garantir o máximo possível de segurança ao receptor, a doação de sangue é realizada em diversas etapas. Depois de preencher um cadastro com seus dados pessoais, o voluntário passa por uma avaliação física preliminar que inclui pressão arterial e uma punção na ponta do dedo para verificar se há algum indício de anemia.
“Depois vem uma parte burocrática. O doador precisa atender a um conjunto de quesitos e isso é verificado numa entrevista individual e sigilosa realizada por profissional especializado e em uma sala isolada”, garante.
Ali, o voluntário vai ser questionado sobre seus hábitos, sobre doenças anteriores e diversas outras coisas que poderiam indicar algum risco de transmissão de vírus e bactérias através daquele sangue. É importante considerar que a pessoa que vai receber a transfusão já está doente e debilitada. Por isso, é preciso reduzir os riscos ao mínimo possível.
“Apesar do hemonúcleo fazer diversos exames no sangue coletado antes de liberá-lo para as transfusões, é preciso considerar o que chamamos de janela imunológica. Trata-se de um período logo depois que a pessoa adquire o vírus ou bactéria em que os microorganismos não aparecem nos testes, mas a pessoa já está transmitindo a doença”, alerta.
A janela imunológica varia muito de uma doença para outra. O HIV (vírus da aids) pode ser detectado 30 dias após a contaminação. Já para a hepatite C, a lacuna entre o momento da contaminação e a detecção em laboratório pode chegar a até seis meses, segundo Freitas.
“Daí a importância desse processo burocrático e da honestidade do doador em não omitir nenhuma informação durante a entrevista, pois ele também é responsável pela qualidade do sangue que vai chegar a um paciente”, reforça.
Se o doador estiver de acordo com as exigências do hemonúcleo, o sangue é coletado e encaminhado para o laboratório, onde são realizados dez exames diferentes para detectar o risco de contaminação por hepatite B, hepatite C, aids sífilis e doença de chagas.
Depois de descartadas as doenças, é feita a tipagem do sangue, que determina a que grupo (A, B, AB ou O) ele pertence e qual é seu fator RH (positivo ou negativo). Só então o material é processado para a extração dos quatro hemocomponentes e liberado para a utilização.
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Doação é sinônimo de saúde
A diretora do Hemonúcleo de Bauru, Telma Cristina de Freitas, salienta que o melhor incentivo para a doação voluntária de sangue é a associação que se faz entre o doador e uma boa saúde.
“A gente costuma dizer que o indivíduo que faz academia regularmente e que se alimenta bem é uma pessoa saudável. Ser doador de sangue também é uma forma de dizer que se é saudável. Quando alguém diz que é doador de sangue, você logo associa que, então, ele é alguém saudável”, evidencia.
A médica lembra que para fazer a doação é preciso comprovar a ausência de doenças transmissíveis e atestar bons hábitos. “Acho importante destacar isso. Só em dizer que é um doador, você já passa a ser visto como um indivíduo diferenciado perante a sociedade”, reitera.
Segundo ela, o processo de conscientização precisa atingir todas as classes sociais. “É muito mais fácil um autônomo, um profissional liberal deixar seu serviço por meia hora do que um empregado pedir dispensa na empresa para vir ao hemonúcleo”, comenta.
No entanto, ela salienta que a imensa maioria dos doadores cadastrados no banco de sangue local pertence à população de baixa renda. “O que a gente percebe é que essas pessoas são mais sofridas, enfrentam mais dificuldades e isso as torna mais solidárias. Porém, a doação de sangue é um ato de cidadania e deveria ser praticado por todos”, encerra.