"O rio Paraná, lá pelas bandas de Três Lagoas, onde, antes de ser represado ostentava muitas quedas d’água, e em suas margens, alternando com as pedras, havia uma faixa de areia branca utilizada para se instalar o precário acampamento dos pescadores, atraia não só os aficcionados como os que apenas queriam se sentir irmanados com a tranqüila e acolhedora área que tinha como música de fundo o som produzido pelo impacto das águas que desciam das cachoeiras. Nossas instalações sempre ficavam na ilha da Baunilha e certo dia outra caravana instalou-se a pouca distância, na outra margem...
Na manhã seguinte de sua chegada notamos uma grande movimentação de seus componentes e, em seguida, a partida de um veículo carregado e levando de volta um pescador. Aliás, pescador fortuito, ele mais se deliciava em apreciar a natureza e bebericar e bater aquele caloroso papo com os companheiros. Pegamos nosso bote, atravessamos a corredeira e fomos lá tomar ciência do ocorrido e ver se poderíamos ser úteis em alguma coisa. Para nossa surpresa, estava já morta em baixo da rede do nosso amigo uma grande cobra cascavel, que o assustou quando foi sair e fez com que ele tomasse a firme decisão de voltar para casa sem mesmo ter aberto a bagagem.
Ao se despedir dos companheiros, ele declarou a preferência de ser mais pescador instalado nas confortáveis cadeiras do bar Cristal em vez de compartilhar com a peçonhenta às margens do caudaloso Paraná. O nome desse saudoso amigo era Nelson Reginato do Canto. É nosso dever ressaltar que durante os muitos anos em que freqüentamos aquelas paragens nunca nos deparamos com qualquer espécie de réptil, a não ser de um grande sapo que apelidamos de Fuscão e que todas as noites vinha se saborear com a grande quantidade de insetos que pululavam ao redor dos fachos de nossas luminárias."
Walther Mortari é pescador e contador de histórias.