Trabalhei numa lanchonete durante 7 meses, recebendo, metade desse tempo, menos de um salário e a outra metade, um.
A lanchonete chegou a ser visitada por um fiscal, que exigiu apenas o registro do estabelecimento, não dos funcionários.
Uma vez fiquei doente e não fui atendido pelos meus patrões, passando cerca de uma hora deitado, com febre num piso de madeira. Logo decidi sair e exigir meus direitos trabalhistas, principalmente o de ser registrado. O advogado que procurei me mandou retornar no dia da audiência. Ingenuamente eu fui, levando fotos de mim no trabalho, caso fossem necessárias como prova. Para minha surpresa, antes de entrar na audiência, meu advogado e a advogada do meu patrão já tinham firmado um acordo em R$ 1.000, sendo que eu receberia R$ 800. Meu advogado disse que eu não deveria pedir o registro (o que eu mais queria) pois os encargos ficariam altos demais, meu patrão iria falir e não pagaria nada. Pressionado, e também por ser tímido, acabei concordando. Na audiência, sabendo que havia acordo, a juíza nem perguntou nada sobre o caso, redigindo diretamente o documento mentiroso, segundo o qual eu negava já ter tido algum dia qualquer vínculo com meu patrão, em troca dos R$ 1.000. Eu assinei.
Na saída escondi, envergonhado, as fotos que trouxera atendendo ao comunicado que recebi em casa, dando a entender que a audiência seria uma espécie de julgamento e levar provas seria importante. Tudo isso aconteceu de forma tão natural e rápida que me pareceu ser uma prática comum na vara trabalhista de Bauru, só que eu imagino que em geral acordos como esse são oferecidos não a pessoas inibidas como eu, mas pessoas pouco esclarecidas, que acabam assinando. Imagino quanto o governo perde em impostos com tudo isso. Arrependido do acordo, procurei a OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Após um mês de espera, pois a pessoa responsável estava de férias, fiquei sabendo desta pessoa que a partir do momento que eu assinei o acordo eu não podia mais questioná-lo, fosse ele justo ou não.
Atualmente estou desempregado. Precisei fazer uma cirurgia e ao me afastar do emprego em outro estabelecimento, perdi-o, e eu não era registrado. A lanchonete em que eu trabalhava e com a qual assinei aquele acordo abrindo mão dos meus direitos, acaba de abrir duas filiais no centro da cidade. Faz um ano que tudo aconteceu e eu espero que de lá para cá a Justiça tenha se tornado mais justa em Bauru e juízes não continuem assinando acordos mentirosos, mas pra ser sincero acho pouco provável que algo tenha mudado.
Fernando Lellis Krupelis - RG 29.568.122-6