08 de julho de 2026
Regional

CEI aponta irregularidades na Saúde

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Garça – A Comissão Especial de Inquérito (CEI) de Garça (70 quilômetros a Sudeste de Bauru), formada para apurar denúncias contra o Hospital São Lucas e o Pronto-Socorro Municipal (PSM), apontou uma série de irregularidades no sistema de saúde da cidade. O relatório final foi divulgado no início desta semana e aprovado por unanimidade pelos cinco integrantes da CEI, o presidente Adamir Mauricio de Barros (PRP), a relatora Sônia Lopes (PTB), e os vereadores Francisco Assis de Souza (PDT), Fred Jorge Siman (PMDB) e Afrânio Carlos Napolitano (PT).

Segundo o documento, durante as investigações foram constatados procedimentos médicos “que caracterizam conduta criminosa”, tais como omissão de socorro e maus tratos, além de casos de negligência, imprudência e imperícia no atendimento a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

O presidente da CEI encaminhará, nos próximos dias, o resultado das investigações para o Ministério Público de Garça, prefeitura, Conselho Regional de Medicina de Marília e SUS, cobrando providências.

A comissão iniciou os trabalhos em outubro, a partir de várias denúncias apresentadas por moradores. “As reclamações eram constantes, então nós resolvemos tomar uma atitude”, afirma Barros.

A investigação desencadeada pela CEI abrangeu toda a rede pública, inclusive as dez unidades de Saúde da Família do município. Entretanto, o relatório apontou irregularidades mais críticas no Pronto-Socorro Municipal e no Hospital São Lucas, onde 90% do atendimento é realizado por meio do SUS. Entre as denúncias, estariam prescrição de medicamento incompatível; falta de atendimento imediato a paciente em estado grave; e casos de imperícia médica, resultando inclusive em seqüelas ao paciente.

Um dos exemplos graves, levantado pelo presidente da CEI, é o de uma menina de 7 anos, moradora do distrito de Jafa, que não teria sido encaminhada em tempo para tratamento especializado e morreu.

No relatório, há também denúncias de mau-atendimento dos usuários, falta de medicamentos e equipe profissional para suprir a demanda do município.

Diagnóstico

No desenvolvimento dos trabalhos, os integrantes da comissão coletaram depoimentos de médicos e usuários. “As pessoas foram convidadas a irem à Câmara Municipal prestar suas queixas contra a Saúde”, descreve Barros.

Além disso, segundo ele, os próprios vereadores teriam realizado visitas no Pronto-Socorro e demais unidades, para constatar as condições de atendimento. Algumas denúncias deram origem, inclusive, a inquéritos policiais

O vereador explica que o objetivo da CEI foi realizar um “diagnóstico” da saúde no município. “Agora nós esperamos que os órgãos competentes tomem as providências”, diz.

Além de apontar irregularidades, o relatório final apresenta uma série de sugestões para a melhoria da saúde pública na cidade, como mudança do prédio de atendimento do PSM, atualmente anexo ao Hospital São Lucas; contratação de médicos e demais funcionários; reciclagem dos profissionais; e realização de campanhas educativas

O sistema de saúde de Garça é municipalizado. O Pronto-Socorro Municipal atualmente é administrado pelo Hospital São Lucas, o único da cidade. A prefeitura repassa verbas do SUS para a instituição.

O secretário municipal de Saúde não foi encontrado ontem pela reportagem para comentar o assunto.

Já a direção do hospital afirma que não teve acesso ao relatório da CEI e por isso não poderia se pronunciar

Segundo a Diretoria Regional de Saúde de Marília (DIR-14), nenhuma denúncia grave contra as unidades de Garça foi apresentada este ano no órgão.

Sindicância

O prefeito da cidade, José Alcides Fameco (PSDB), afirma que serão instauradas sindicâncias administrativas para apurar as irregularidades apontadas pela CEI.

Segundo ele, desde o início a prefeitura apoiou o trabalho realizado pela comissão. “Achamos que a CEI era importante para fazer um acompanhamento de como o sistema de saúde está funcionando”, afirma.

De acordo com o prefeito, a partir do resultado da sindicância, a prefeitura vai penalizar os responsáveis. Entretanto, na opinião dele, muitas das falhas apontadas pela comissão seriam comuns ao sistema público de saúde, como a dificuldade de agendamento para consultas e casos de mau atendimento.

“São problemas encontrados em outras cidades, em todo lugar”, afirma. “A estrutura de saúde de Garça é excelente comparada a média do Brasil”, defende. Em relação às sugestões apontadas pelo relatório, o prefeito afirma que todas serão analisadas.

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Pronto-Socorro

Segundo a direção do Hospital São Lucas, atualmente responsável pelos serviços do Pronto-Socorro Municipal (PSM) de Garça, cerca de 100 pacientes são atendidos diariamente na unidade. O número é considerado alto para o município, de cerca de 45 mil habitantes.

Recentemente, uma equipe de médicos de uma empresa prestadora de serviços de Marília, que estava à frente do PS há um ano, desistiu do trabalho. Segundo a direção do hospital, o número excessivo de pacientes que procuram o local diariamente teria motivado a equipe a abandonar o serviço terceirizado.

Atualmente, o corpo médico do próprio hospital tem se revezado para atender a demanda do PS. Segundo o administrador do São Lucas, João Luiz Castro Velluce, apesar do contratempo, o atendimento não estaria sendo prejudicado.

O vereador Adamir Mauricio Barros discorda da informação. “Em algumas ocasiões, há apenas um médico para atender cerca de 100 pessoas, isso não tem condições”, protesta.

Apesar das opiniões contrárias, ambos os entrevistados afirmam que muitos pacientes estariam procurando o Pronto-Socorro para atendimento ambulatorial, e não para os serviços de urgência e emergência, como é previsto. Eles defendem a importância de realizar um trabalho de conscientização dos moradores para reverter o problema. â€œÉ preciso fazer uma campanha educativa para orientar a população a procurar o PS só em caso de necessidade”, afirma Barros.