A Câmara Municipal de Bauru atravessou 2003 vivendo um verdadeiro inferno astral. A herança é do final de 2002, mas persistiu no ano seguinte. Denúncias de superfaturamentos, cassações e renúncias de mandatos, além de assessora e viagens fantasmas. Foram 12 meses de notícias negativas contra poucas positivas. Os vereadores - revestidos na função de fiscalizadores - tiveram que cortar a própria carne e mostrar que o corporativismo no Poder Legislativo é coisa do passado.
No final de 2002, ganhou força a denúncia de que equipamentos e materiais eram adquiridos com preços acima da média de mercado. O item prestações de serviços também estava incluso nesse quesito. Era o final da gestão do então presidente Walter Costa (PPS), que tinha como vice Roberto Bueno (PTB).
A aquisição do datashow foi o início de tudo. Após muitas discussões e articulações de bastidores, o plenário do Legislativo aprovou, no dia 24 de fevereiro deste ano, a abertura da Comissão Especial de Inquérito (CEI) das Compras.
A partir daí, as atividades legislativas praticamente paralisaram. As atenções se voltaram para dentro da própria Câmara. Cartuchos de tonner, os softwares Corel Draw e autoCad e mais uma lente zoom para microfilmagem - adquiridos e não encontrados - reapareceram do nada em depósitos e arquivos da Casa.
Ainda na condição de vereadores, Osvaldo Paquito (PPS) e Bueno tiveram que pedir para sair da CEI das Compras. Paquito porque depositou na sua conta conta-corrente cheque emitido pela Câmara para pagamento de terceiros. Bueno porque ocupou a vice-presidência do Legislativo justamente no biênio 2001/2002 e foi citado em depoimento de servidores.
O relatório da CEI, assinado pelo vereador José Humberto Santana, pediu Comissão Processante para os três. Já surgia nos bastidores os comentários da viagem de Santana a Brasília, para onde se deslocou com carro oficial levando familiares.
Sua situação piorou quando Paquito o gravou em conversa telefônica. No diálogo, Santana fez referências a situações de diversos vereadores. Antes mesmo de aprovar as CPs de Bueno, Costa e Paquito, o plenário deliberou a favor de uma Processante para o ex-relator da CEI das Compras.
Ao invés de três, já eram quatro vereadores destinados a enfrentar o desgaste de um pedido de cassação. De nada adiantaram as articulações de bastidores, negociações e jogadas repentinas no tabuleiro político da Casa. Santana e Paquito foram cassados. Bueno e Costa decidiram se antecipar ao que lhes esperava e renunciaram ao mandato.
O então diretor financeiro do Legislativo, Luiz Renato Joel, também envolvido nas denúncias, foi exonerado do cargo após conclusão de processo administrativo.
Mas quando tudo parecia resolvido, surgiram os primeiros indícios das viagens fantasmas. A apuração da Promotoria Criminal mostrou indícios de irregularidades no uso de veículos oficiais, emissão de notas e diárias de servidores que nunca estiveram em cidades para as quais teriam sido deslocados.
Como se já não bastasse as cassações e renúncias, o plenário teve que julgar o mandato do prefeito Nilson Costa (PTB), cassado no final de setembro após as apurações da Processante da Carne.
Sua distância do poder, porém, durou pouco. O vice Dudu Ranieri (PFL) só permaneceu 23 dias sentado na cadeira mais importante da cidade. O mesmo aconteceu com Santana, que municiado por uma liminar do Tribunal de Justiça (TJ) foi reconduzido à função de vereador.