O debate, já iniciado, na mídia, sobre crescer ou não em 2004, traz de volta um velho desafio à economia brasileira: como incluir um contingente, avaliado hoje entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas, no mercado interno, ou seja, como transformá-las em consumidores estáveis. Em outras palavras, trata-se de refazer, no período entre 2004 e 2006, um novo, mas bem-sucedido, Plano Cruzado, que à época, 1986, deu poder de compra, embora apenas por seis meses, para cerca de 30 milhões de brasileiros.
A missão não é nada fácil. Alguns dirão que, na verdade, esse contingente de 50 milhões de pessoas já está, mesmo que precariamente, graças ao Fome Zero e aos demais programas de transferência direta de renda, como o Bolsa-Escola e outros, sendo incluído no mercado consumidor. Uma coisa, porém, é realizar programas sociais e outra - bem diferente - é criar empregos estáveis.
Antes do PT, o ex-presidente FHC também teve de enfrentá-lo. Sem condições de reeditar o Plano Cruzado, criou o Plano Real, que deu a ilusão de que a classe média assalariada ganhava em dólares, tal era a paridade (ilusória) de nossa moeda, durante o período 1994-98.
O encanto se desfez, já no começo de 1999, e, felizmente, para nós, brasileiros, o real foi desvalorizado em relação ao dólar. Nossos vizinhos, argentinos, apostaram que a ficção venceria a realidade e se deram mal.
A classe média brasileira, que desde o segundo mandato de FHC até hoje vem pagando a maior parte da conta dos sucessivos ajustes fiscais, já teve seus dias de glória, na década de 70, quando sob a batuta do ex-ministro e atual deputado federal Delfim Neto viveu o chamado “milagre brasileiro”.
Bem, mas voltemos ao presente. A equipe econômica do governo, comandada pelo ministro Antônio Palocci, entende que o pior do ajuste – a parte macroeconômica - já foi feito em 2003. Restaria, a partir de 2004, dar início ao ajuste microeconômico, no qual inclui a questão da geração dos dez milhões de empregos, capazes de sustentar de forma estável aquele contingente de 50 milhões de pessoas.
Ironicamente, um tímido primeiro passo foi dado, ao apagar das luzes de 2003, quando, para fazer passar a reforma tributária, o governo teve de ceder às pressões do PSDB e do PFL, que exigiram a aprovação do Super-Simples. Esse programa deverá beneficiar cerca de 700 mil empresas do setor de serviços, grande gerador de empregos, que foi injustamente onerado, com a elevação da alíquota da Cofins.
Ao longo dos próximos anos, o Super-Simples poderá criar talvez uns dois milhões de novos empregos. Se isso vier a ocorrer, ficarão faltando mais oito milhões. Otimista, Palocci acredita no sucesso da empreitada.
A nós, meros contribuintes, resta-nos apenas torcer para que tudo dê certo, apesar dos indicadores de emprego, renda e consumo mostrarem o contrário. Vamos fazer figa.
O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações Brasileiras dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - FENADVB.