09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Homologar ou não um recorde?

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

O assunto ainda é pouco discutido no Brasil. Alguns pescadores se preparam para “bater” um recorde, outros questionam o porquê dessa necessidade. Buscar a homologação de um recorde junto à International Games Fish Association (IGFA) é atitude de raros pescadores brasileiros. A instituição é sem fins lucrativos e foi criada nos Estados Unidos, em 1939, para conservação das espécies e incentivar pesquisas sobre ictiologia, além de incumbir-se do registro de recordes mundiais.

Nos Estados Unidos, figurar no “Livro dos Recordes da IGFA” é um mérito bastante reconhecido. Aliás, a pesca é levada a sério nos EUA, onde as licenças são rigorosamente expedidas e as pescarias, fiscalizadas. Não mata-se peixes aleatoriamente e o país é o que mais se beneficia da indústria da pesca esportiva, com seus produtos e serviços específicos.

O Brasil está engatinhando no setor, pois, infelizmente, a fiscalização é quase inexistente nessa imensidão de águas interiores e litoral brasileiros. É realmente muito complicado fiscalizar a pesca predatória no Brasil, onde não há consciência da necessidade de preservação. Até no período de defeso, as espécies são desrespeitadas e pescadas indiscriminadamente.

Como pensar, então, em homologação de recordes, se a própria pesca esportiva é tão pouco praticada? Talvez, fazer com que as espécies brasileiras figurem na lista dos peixes da IGFA e incentivar a fiscalização formal e informal em nossos rios sejam alguns pequenos passos rumo à conscientização.

O Brasil é um dos países com o maior potencial pesqueiro do Planeta, com mais de 2.500 espécies de água doce catalogadas, sem contar as inúmeras espécies de água salgada. Peixes esportivos? Temos muitos! Locais para pesca? Talvez os mais belos do mundo.

É possível que o brasileiro ainda não consiga avaliar a pesca como uma indústria altamente lucrativa e, por isso, ainda é tratada de forma “amadoresca”.

Por que homologar

O pescador e biólogo Tiago Almeida de Andrade pesca há 12 anos e não considera necessária a homologação de um recorde. “A IGFA é uma instituição aristocrata, que não condiz com as condições de pesca brasileira. Nem todos têm condições de mandar aferir uma balança. Mas o principal, na minha opinião, é que os brasileiros são mais simples que os demais pescadores, se preocupam só com o prazer da boa briga, não fazendo questão de mostrar aos outros que são melhores ou mais hábeis”, finaliza.

Já o pescador Rick Morais, de São Paulo, questiona o futuro dos locais de pesca, se divulgados. “Aqui no Brasil, homologar um recorde traria conseqüências negativas ao local, dando início a uma caçada aos peixes recordes, como ocorreu no Estado de Amapá, após a divulgação de tambaquis de mais de 30 quilos, pelo programa Terra da Gente”, comenta.

Octavio Campos Salles é pescador e, apesar de não se considerar, também atua como guia de pesca na Amazônia, em pescarias de tucunarés. Para ele, são três os principais fatores trazem desisteresse aos pescadores brasileiros na homologação de recordes. “O primeiro são as regras. Apesar de não serem muito complicadas, são regras e devem ser seguidas, o que afasta muita gente”, coloca.

O segundo motivo apontado pelo pescador é a cobrança de taxas. Para a homologação de um recorde, são cobrados U$ 10 para associados da IGFA e U$ 35 para não-associados. “Para muita gente, isso já desanima”, comenta Salles.

Agora, a principal razão, de acordo com Salles, é que a maioria dos peixes esportivos de água doce do Brasil ainda não está inclusa na categoria de linha da IGFA, somente na categoria “all tackle” (maior exemplar). “Com todo respeito, é meio a segunda divisão dos recordes”, diz o pescador. “Se peixes como bicuda, matrinxã, tabarana, piraíba, entre outros, estivessem na lista, com certeza o interesse aumentaria, como está crescendo. Recentemente tivemos a inclusão da pirarara, aruanã, trairão e surubim na categoria de linhas”, informa Salles.

Como observador do setor pesqueiro, Octavio Campos Salles busca pescar de acordo com as regras da IGFA na tentativa de bater um recorde de tucunaré, por exemplo. “Eu só mandaria um recorde “all tackle” se fosse um peixe extraordinário”, salienta. “Estivemos pescando recentemente na Amazônia e o Gerson Kavamoto pegou um aruanã do fly (tippet 12 lbs), que está sendo homologado pela IGFA, se não estivesse na categoria por linha, não mandaria para homologação”, exemplifica Salles.

O paranaense Carlos Eduardo Ogasawara avalia como burocrático todo o processo. “Preencher formulários, procurar testemunhas, mandar linha. Acho que não tenho paciência para tanto, o que importa é o prazer da pesca mesmo. Mas é bonito ver nomes de brasileiros estampados no livro da IGFA. Embora esteja sendo um tanto contraditório, dependendo da espécie acho que teria o trabalho de colocar meu nome para concorrer ao recorde!”

Curiosidades

www.igfa.com.br www.tbftt.com.br www.ranchoxingu.com.br www.fishing-in-rio.com

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Experiência própria

“Há pouco mais de uma semana, recebi o certificado de homologação do recorde de jurupensen que tive a oportunidade de pescar e liberar no rio Xingu, em julho passado. Confesso que minha vida não mudou nada, não fiquei nem mais rica, nem mais bonita, nem melhorou meu desempenho na pesca. Apenas sou uma das primeiras, ou talvez a primeira - pois não é possível conferir com certeza, o site está sem atualização desde setembro - mulher brasileira a entrar no livro dos recordes da IGFA.

Até aí, como dizem os pescadores, na categoria “all tackle” (segunda divisão da pesca), nada muda mesmo. O que avalio, na condição de jornalista que teve a oportunidade de bater um recorde mundial por míseros 300 gramas, é no mínimo gostoso e até curioso.

A burocracia existe, mas nada comparada, por exemplo, a buscar a restituição do FGTS retido no Plano Collor. Posso garantir. Pagaria, com certeza, U$ 35 para não enfrentar as filas e o vai e volta. Mas isso é outro assunto.

É só preencher os formulários, disponíveis para baixar no site da IGFA (www.igfa.com.br), o que é fácil de preencher. Colocar testemunhas, enviar parte da linha e fotos que confirmem a veracidade da pescaria. Após uns dois meses, vem a resposta. Aí é só esperar a publicação anual no livro dos recordes da IGFA.

O peixe com o qual bati o recorde do capitão Kdu Magalhães, o recordista brasileiro em recordes homologados pela IGFA, foi um jurupensen de 1,5 quilo. O grupo (saiba mais no www.tbftt.com.br) que acompanhei esteve durante sete dias pescando nos rios Sete de Setembro, Kuluene e Xingu, hospedados no Rancho Xingu, que possui Certificado de Apreciação pela IGFA e terá uma balança aferida em breve. Aliás, o capitão Kdu foi quem me incentivou. Ele já teve mais de 25 recordes homologados pela IGFA, a maioria mantida até hoje.

Creio que o Brasil tem um forte potencial na pesca esportiva e talvez ter o nome de seus rios e peixes no livro dos recordes da IGFA pode ser uma propaganda positiva. Lutar contra a pesca predatória é dever do governo, de donos de pousadas e todos aqueles que amam a natureza e pescaria. Pescar e liberar um peixe é ainda mais gostoso.

Kdu Magalhães é guia de pesca oceânica e já conquistou o primeiro lugar em vários torneios de peixes de bico. Em seu site (www.fishing-in-rio.com) é possível conferir algumas de suas aventuras pesqueiras no Brasil e em outros países.