Há pessoas que nunca deveriam morrer. É verdade que um dia caímos em sono profundo, uma espécie de coma induzido até como forma de aliviar as nossas dores. Mas prefiro acreditar que certas criaturas jamais morrem. Ficam encantadas. Passam a povoar nos nossos corações e mentes. Moussa Tobias cabe bem dentro desta abstração. Sequer por ter sido honesto, pai preocupado com o futuro dos filhos e um amigo leal. Cultuar esses valores básicos chega a ser uma obrigação, mesmo num mundo de pigmeus morais que, desde Rui, “riem da virtude”.
A morte de Moussa deixa Bauru mais pobre de gente capaz de gestos de grandeza em favor da sua cidade. Trabalhei com ele, fui seu amigo como tantos outros e pude ser testemunha da sua constante preocupação em contribuir com o coletivo. Até o Noroeste andou ajudando. E, quando eu perguntava por que não empregar o seu dinheiro em coisas mais úteis, ele explicava que todo povo tem suas marcas e tradições. Perdê-las poderia redundar em colapso da auto-estima da comunidade. Na sua lógica de beduíno o prejuízo poderia ser ainda maior para todos.
Moussa foi um libanês que amou o Brasil. Como todo imigrante, nunca se esqueceu da terra-mãe que, para ele, manifestava-se nos seus sentidos. Uma coisa proustiana, como o despertar de recordações ao comer uma maçã ou carneiro recheado generosamente servido aos amigos no seu rancho à beira do Tietê. “A Pátria é onde nós temos a nossa alma acorrentada”. É uma frase de Gibran que Moussa costumava usar para dizer que aqui estavam as suas querências e, portanto, as raízes fincadas.
Quando chegou a Bauru, em 1959, seus irmãos já estavam aqui. Saiu mascateando pelo Interior ainda sem falar direito o português. Pior que o problema com a língua, a comida dos botecos de beira-de-estrada fizeram um estrago em seu estômago. Curou-o a dona Sálua, mãe do Raduan Trabulsi que tinha uma pensão famosa entre os estudantes nos anos 60. Para o Moussa, a comida era especial: salada sem vinagre, purê de batatas e caldinhos leves. Tonificado pela cozinha da dona Sálua, esse libanês expandiu os seus negócios. Casou-se com dona Wanda, de família italiana, montou uma fábrica de meias com equipamentos usados. “Comprei as máquinas e o técnico junto”. Foi o pulo do gato. Sem a pessoa certa que soubesse distinguir gritos e sussurros de cada uma das geringonças tchecas, a coisa iria acabar em sucata sem nenhum pé de meia produzido.
Em outra passada larga, começou a produzir agasalhos esportivos. Vendia para o Brasil inteiro. Irrequieto, fundou a Sukest, fábrica de sucos em pó, gomas e confeitos. Conseguiu as fórmulas com um químico da General Foods e fez um produto ainda melhor. Outro pulo do gato. Assim conseguiu seu espaço num mercado altamente competitivo e dominado por multinacionais. Como líder nato e autoconfiante, nunca teve medo que lhe fizessem sombra. Delegava poderes para poder cobrar, mas também trabalhava tanto como qualquer outro. Quando presidente da Cohab no governo Gasparini/Tuga, muitas vezes acordávamos às 4h para chegar no extremo do Estado logo na primeira hora do expediente. Depois de dois anos deixou a Companhia entre as mais produtivas do Brasil, milhões em caixa e mais de 50 projetos de núcleos habitacionais em cima de áreas doadas e que permitiram à Cohab sobreviver por décadas de desaforos econômicos. Embora presidente, pagava as despesas do próprio bolso para poder ficar no hotel que bem entendesse e pedir pratos mais caros para acompanhantes, sem onerar o patrimônio público.
Lutou contra o câncer desde o dia do diagnóstico. Sabia que sua vida seria curta, mas recusou-se a enfiar a cabeça na areia. Nos intervalos entre uma quimioterapia e outra voltava aos negócios como se nada estivesse acontecendo. Ele é que consolava a família e os amigos com suas demonstrações de coragem. Na última vez que o vi, na Márcia Jóias, continuava o mesmo arguto observador das mazelas políticas da cidade. O bom-humor sobreviveu até quando quiseram impingir a ele e outros empresários uma nota de culpa sobre demora no empreendimento Savoy. Uma canalhice menor. “Deixa pra lá...” foi sua única reação. A exemplo do árabe do conto de Malba Tahan, Moussa talhava no granito o nome dos amigos e, na areia, as ingratidões sofridas.
A política sempre foi o seu hobby. Políticos de todas a tendências procuravam Moussa. Humilde e conciliador, recebia a todos com solicitude. Todos iam atrás dos seus prognósticos calcados em pesquisas científicas e... de algum dinheirinho para a campanha. Tinha orgulho do seu irmão Pedro, eleito e reeleito deputado estadual graças aos acordos costurados por Moussa com os prefeitos da região. Nem tanto pelo cargo, mas pela postura ética e intransigente do caçula que também não abre mão dos interesses maiores do povo.
Desaparece o corpo, mas o espírito continua como fonte de inspiração e bons exemplos.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.