08 de julho de 2026
Economia & Negócios

Artigo: Exportar é mesmo o que importa?


| Tempo de leitura: 2 min

Ainda outro dia, vi na tv que muitos plantadores de manga estão deixando os frutos caírem do pé e apodrecer, porque os preços não estão compensando os custos de produção. Lembrei-me de meus primeiros tempos de São Paulo, fazendo faculdade e sem emprego, vivendo unicamente da pouca mesada que meus pais podiam me mandar.

Não foram poucas as vezes que ‘almocei’ uma suculenta manga, três ou quatro bananas, pera e maçã, metade de um abacaxi, um pedaço de melancia, uma vitamina de abacate - enfim, o que o meu ínfimo dinheiro (dos meus pais) podia pagar.

Não passa uma semana que eu não veja na televisão alguma reportagem tratando da fome e aí pensei num artigo/crônica que escrevi não faz muito tempo, comentando minha perplexidade ao ver toneladas de caju apodrecendo sob as árvores, já que os catadores ocupavam-se apenas das castanhas. Aquele mundaréu de gente passando fome e nós, aqui mais para o Sul, pagando de R$ 4 a R$ 5 por uma caixinha com módicas três ou quatro unidades.

Pergunto: e o tão propalado Fome Zero, onde fica nisso, que posição toma a respeito? Ô, gente, fome não se aplaca só a partir do combinado arroz/feijão/macarrão/carne/ovo e pão, não.

Acompanho o empenho de governos e empresários em ampliar as exportações. Nosso novo presidente-viajante também fala muito nisso, em abrir novos mercados. E assim tem de ser mesmo, já que temos sufocantes juros a pagar de muitas dívidas escandalosas que nos impingiram.

E se o assunto é exportar, eu me permito, com sua permissão, leitor/a, se não seria o caso de, antes de exportarmos, solucionarmos aqui dentro essa pavorosa e apavorante questão da fome? Que tal seria a aplicação de medidas eficazes para evitar o tanto de desperdício, conferido e constatado a olhos vistos?

Ou, talvez, adquirindo esse excedente jogado fora, para apodrecer, e efetivamente colaborar com quem realmente combate a fome - nós, meros cidadãos e ONGs - para exterminar este flagelo?

As pessoas que vibram com os recordes produtivos e de exportação parecem não perceber que, em isto acontecendo, apenas alguns poucos (enriquecidos por seus esforços) gastam fortunas adquirindo carros novos, mansões estupendas, implementos computadorizados, parafernálias eletroeletrônicas, mais terras para mais produzir e com elas ganhar mais. Mas nunca vi nem um único quinhão, desse dinheiro todo ser repartido com quem menos tem.

Não sei o que você pensa, leitor/a, mas eu tenho cá comigo que, para viver bem, eu só preciso ganhar o suficiente para pagar este “viver bem”. Mortalha não tem bolso, caixão não tem gaveta e a melhor herança, está provado, é o conhecimento/educação que se dá em vida. Dinheiro e bens, acabam logo.

Agora, com licença, vou comer uma goiabinha...

O autor, Diorindo Lopes Júnior, é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio, da editora Saraiva.