09 de julho de 2026
Articulistas

Visões internacionais


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O ano de 2003 termina na corda bamba. Ninguém acredita que tendências favoráveis da economia internacional que beneficiaram o País continuem atuando em 2004.

O governo Lula da Silva adotou a política econômica ortodoxa para espantar os fantasmas criados no setor financeiro durante os anos de exaltada pregação radical. Sentimos os efeitos na carne. O desemprego aumentou em ritmo mais acelerado que nos tempos idos do Plano Real. A queda da renda dos trabalhadores, em intensidade jamais vista, não cria condições para o crescimento econômico. Durante o ano perdido, escutamos a lenga-lenga sobre a fome e a prioridade do social. Nem sequer os recursos orçamentários previstos para a área social foram liberados. As reformas, pregadas como salvação da pátria, resultaram frustrantes.

Clovis Rossi pergunta: “Qual a perspectiva para o resto da população?” Milhares de desempregados. Massa assalariada com a renda esmagada. Funcionários públicos traídos. Velhinhos humilhados. Intelectuais petistas irados. O MST chamando Lula de “geneticamente modificado”. Radicais frustrados. “O PT escolheu a perspectiva da “pátria financeira”. Será feliz com ela, como foram Menem, Fujimori, Salinas de Gostari. Depois...” Boa fonte de reflexão são as advertências de intelectuais progressistas internacionais.

Kenneth Maxwell, desde agosto de 2002, advertia que a histeria que tomava conta do mercado financeiro pela eleição de Lula, devia-se a dificuldades que já estavam erradas no modelo de FHC. Profetizava a política econômica caso da possível vitória de Lula: “Acho que não há espaço para uma política só de oposição, sem levar em conta a realidade Não seria uma política consistente”. Mostrava os limites da política econômica ortodoxa: “No fim das contas, a sociedade brasileira tem voz, e essa voz pedirá crescimento econômico, menos desemprego, mais oportunidades de estudos e mais segurança. Esses são os direitos da sociedade.”

John Williamson, o pai do Consenso de Washington, execrado como símbolo do neoliberalismo por petistas, sugere, no início do ano, a adoção de medidas restritivas à entrada de capitais voláteis, para evitar a valorização do real e dificuldades com as exportações. Defende cortes nos juros e até mesmo a adoção de taxas sobre os capitais.

O sociólogo Gunder Frank, advertia, em Seminário sobre Hegemonia e Globalização, que os juros altos do governo Lula já haviam acabado com duas prioridades do governo petista: a reforma agrária e o combate à fome. “Tudo será para pagar aos norte-americanos com dólares. O Brasil já pagou o montante original de sua dívida umas quatro ou cinco vezes. Por que pagar ainda mais juros outra e outra vez? O FMI, sob controle do Tesouro americano, nem quer que o Brasil e outros países latino americanos acabem com as dívidas, porque é ela que permite o controle externo sobre a política interna”. A ortodoxia enterra as mudanças prometidas por Lula.

Em setembro, as críticas avolumaram-se. Robert Brenner, da Universidade da Califórnia, foi cáustico: “Se o Brasil entrasse em moratória, suas relações com o capital financeiro internacional se tornariam mais saudáveis”. Sobre as reformas institucionais da agenda petista foi implacável: “Parecem ser ainda mais autodestrutivas do que sua política macroeconômica”. Alain Touraine, no Rio, lamenta a falta de ousadia do governo Lula. Sabe muito bem “que o problema central do Brasil é saber combinar as regras da democracia com profunda transformação social”. Mudança depende de distribuição de renda: “Isso não se faz com facilidade. É preciso mobilização dos movimentos sociais e capacidade do governo para “saber negociar com as classes favorecidas”.

É onde a porca torce o rabo...

O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.