A magia da telona não se perdeu no 3º milênio. Ao contrário, tomou novo fôlego e fez os brasileiros saírem de casa para conferir os lançamentos nacionais. A qualidade dos roteiros e da tecnologia conquistaram o público. Este ano, 20 milhões de brasileiros foram assistir aos filmes nacionais. E entre as 30 estréias brasileiras do ano, as três mais vistas - “Carandiruâ€, “Lisbela e o Prisioneiro†e “Os Normaisâ€- são da Globo Filmes, núcleo independente da Rede Globo que já pode ser chamada de Hollywood brasileira. “Este caminho da colheita fantástica de 2003 é resultado do investimento em vários projetos há 4 e 5 anos. E em 2004 ainda teremos muitos projetos desta safraâ€, destaca Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da Globo Filmes. Para 2004, a empresa começa a investir em documentários, desenhos animados e também filmes com orçamentos menores.
Os primeiros sinais da retomada apareceram logo no ano 2000, quando foram lançados 24 filmes e mais de 7 milhões de pessoas conferiram os longas nacionais, um número 25% superior ao do ano anterior. De lá para cá os números só cresceram, embalados por “Cidade de Deus†e “Carandiruâ€. O cinema nacional entra em 2004 com razões de sobra para comemorar. Segundo dados da Secretaria do Audiovisual, 20% dos lançamentos do cinema foram brasileiros. Não se via nada igual desde a época de ouro dos anos 70, quando foi lançado “Dona Flor e Seus 2 Maridosâ€, ainda o filme mais visto, com quase 11 milhões de espectadores.
Antenada nas tendências mercadológicas, a Globo decidiu co-produzir os projetos tupiniquins e criou há cinco anos a Globo Filmes. Na época, um estudo identificou que a bilheteria nacional poderia dobrar em três anos. A empresa apostou no mercado futuro e começa a faturar. Dos 3% de participação no mercado dos primeiros anos, agora a Globo Filmes detém 21%. â€œÉ uma responsabilidade pesada, e é muito fácil de perder o mercadoâ€, assume o risco Rodrigues.
Um dos responsáveis direto de tanto sucesso é o diretor artístico Daniel Filho, que soube muito bem escolher a quem se associar. “A virtude é ter um conjunto de projetos com temáticas distintas. Não ficamos calcados em um só tipo de filme, que foi uma evolução fundamental. Temos a Xuxa fazendo o mesmo dois milhões de sempre, ‘Cidade de Deus’(direção Fernando Meirelles) fazendo 4 milhões e pouco, e uma comédia romântica como ‘Lisbela’ (direção Guel Arraes) fazendo três milhões e poucoâ€, destaca Rodrigues.
Monopólio
Os filmes com o carimbo da Globo caíram no gosto do público. Por causa deste sucesso e por ser a produtora das Organizações Globo, alguns cineastas, como Ruy Guerra e Walter Salles, já vieram a público defender a tese que a Globo Filmes estaria criando um monopólio. “Monopólio de que?â€, indaga Rodrigues. Ele explica que dos 30 filmes lançados este ano, apenas dez são da Globo, que detêm 92% da audiência. “Sei que tem mais de cem projetos rondando por aí, então não temos este monopólio. O problema é que o público esta referendando nossos filmes. Pode ser o monopólio do gosto do públicoâ€, argumenta. E completa: “O crescimento da Globo Filme não foi por um monopólio mas por profissionalismo.â€
Ele explica que a Globo Filmes é uma produtora e não participa do processo de captação de filmes. Ele revela que Fernando Meirelles (cineasta de ‘Cidade de Deus’) conseguiu captar apenas cerca de 20% do total do filme e bancou o resto do bolso. “A Xuxa, com ou sem a Globo Filmes, vende. Ela tem uma estrutura própria para vender as quotas de patrocínioâ€. Ele explica também que os anúncios nos intervalos do “Jornal Nacional†na véspera das estréias são pagos pelo distribuidor, não é um brinde da “Globo†como muitos pensam e nem é vendido a “preço de bananaâ€. “Acreditamos que se os distribuidores investem em massa nos EUA por que não investiriam aqui? Fazemos isso para dar uma educada no mercado brasileiro.â€
Segundo a lei do Audiovisual, uma rede de TV brasileira pode ser co-produtora do filme e deter no máximo 49% das ações do empreendimento. E Rodrigues não vê a hora das outras emissoras entrarem no mercado. “Somos uma empresa de capital nacional e não temos nenhum tipo de incentivo fiscal enquanto os distribuidores estrangeiros têm. Acho que o governo poderia estimular mais para que surjam a ‘RedeTV’ Filmes, a ‘Record’ Filmes, o ‘SBT’ Filmesâ€.
Em 2002, a Globo Filmes recebeu um volume muito grande de roteiros. “Sempre leio todosâ€, afirma Daniel Filho. Mas para aproveitar o bom momento da retomada do cinema, a empresa saiu em busca de projetos já filmados ou em fase final de filmagem, para exibir este ano. “Neste lote veio ‘Deus é Brasileiro’, ‘Homem que Copiava’ e ‘Caminho das Nuvens’. Cada filme tem uma história e cada um deles tinha um atrativo, uma razão para participarmosâ€, conta Rodrigues. Mas para 2004 a história é outra. “Nossa missão daqui para frente é mais firme no propósito de participar mais, vamos entrar em filmes onde a gente de fato possa contribuir mais porque os filmes onde entramos de fato com a co-produção tiveram resultados melhoresâ€, destaca o executivo.
A Globo Filmes não quer ser confundida com a emissora de TV. “Não vamos mais nos associar a projetos que nos vejam apenas como um bureau de divulgação. “Existem alguns diretores que não conhecem a nossa forma de trabalho. Pensam assim – quero fazer o filme que eu quero fazer e usar a mídia que eles têm para divulgar. Isto não é uma parceria ou um desenvolvimento conjunto. Isto é um formato de trabalho com o qual não queremos trabalhar maisâ€, avisa.