Os maiores desafios políticos do governo em 2004, após a aprovação das reformas e a consolidação do ajuste fiscal, estarão fora do Congresso. A sociedade cobrará os resultados da tão aguardada recuperação da economia, com crescimento e geração de empregos, além de mais investimentos na área social. O desempenho do segundo ano da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será fundamental no primeiro teste eleitoral desta administração, com as eleições municipais em outubro. A estratégia do PT é eleger mais de 400 prefeitos para se tornar um partido mais robusto e competitivo e manter-se no poder federal em 2006, quando ocorrerão as próximas eleições presidenciais.
O cientista político Fábio Wanderley Reis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a legenda passou por um amplo aprendizado no primeiro ano como governo federal, ao atuar de maneira ortodoxa na economia, mas terá de conciliar a gestão macroeconômica e a busca por resultados mais expressivos nesta área com a agenda social, marca do PT que levou a sigla, em grande medida, ao comando do País. “Agora, o PT tem de fazer isso sem abandonar o que deu marca ao partido. O grande desafio será o próprio PT, será manter a fidelidade aos objetivosâ€, diz Reis.
Enquanto o PT pretende se firmar politicamente no segundo ano de gestão, a oposição tentará mostrar que ainda é alternativa de poder. Acuado pelo discurso pró-reformas que teve de assumir em 2003, o PSDB promete sair desse embaraço para assumir um comportamento mais oposicionista. Entra o ano revigorado com a eleição do ex-senador José Serra (SP) para o comando do partido, justamente o adversário de Lula na sucessão presidencial. Uma referência nacional, Serra pode dar novo rumo ao PSDB, adotando uma conduta mais crítica e consistente.
“Mesmo com erros, o governo Lula ainda é uma alternativa melhor do que o retorno do PSDB e PFL ao poderâ€, diz o líder do governo na Câmara, Aldo Rebelo (PC do B). Na mesma linha de Lula, Rebelo acha que o governo conseguirá gerar empregos e investir em 2004. Isso se reverteria em votos. “A economia ainda não está com musculatura suficiente para correr uma maratonaâ€, questiona o deputado tucano Eduardo Paes (RJ), certo de que o governo agirá com cautela na economia para não pôr em risco o projeto de reeleição de Lula em 2006.
Para enfrentar o PSDB e o PFL nas urnas e se aproximar mais do centro político, o PT vai pegar carona no PMDB, detentor da mais poderosa máquina partidária e que, a partir de janeiro deve participar, efetivamente, do primeiro escalão do governo. Poderão ocorrer acordos eleitorais, como uma eventual dobradinha PT/PMDB para a reeleição da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), ou uma chapa do prefeito de Goiânia, Pedro Wilson (PT), com o deputado Luiz Bittencourt (PMDB-GO). O presidente nacional do PT, José Genoíno, atua nos bastidores para evitar disputas internas e tentará ampliar a aliança com os partidos aliados. “Se houver guerra local, vamos evitar que respingue na aliança nacionalâ€, diz, ressaltando que as alianças só serão discutidas no primeiro semestre de 2004.
Agenda
Paralelamente às alianças eleitorais, o Legislativo cumprirá uma agenda parlamentar menos traumática e menos trabalhosa em 2004. A discussão da reforma política estará concentrada na Câmara, mas só entrará em vigor em 2006. “Nada será feito para pôr em risco o que o governo consolidou na sua base políticaâ€, disse o deputado Paulo Rocha (PT-SP). Um tema polêmico é a reeleição dos presidentes da Câmara e Senado. Ainda é uma iniciativa que desagrada tanto a setores do PT quanto dos demais partidos.
A data do envio ao Congresso da reforma trabalhista e sindical é outro tema que não tem convergência. Uma idéia é cuidar apenas da parte sindical em 2004, deixando os direitos trabalhistas para outra fase. Outra tendência é deixar tudo para 2005 para que se possa ter um ano político mais tranqüilo. Mesmo assim, não há entendimento. Outros projetos estarão em discussão, como o marco regulatório e a Lei de Falências. São propostas que têm interesse na economia, mas não geram confrontos políticos internos, comparado ao clima polêmico e tumultuado de 2003, que pôs o PT em choque com o próprio PT. “Será um ano politicamente melhor e o governo terá condições de fazer realizaçõesâ€, previu o vice-líder do governo na Câmara, Renildo Calheiros (PC do B-PE).