08 de julho de 2026
Articulistas

As duas pirâmides


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Dois formatos de pirâmides enfeitaram as primeiras páginas dos jornais em dezembro. Sob o fundo do primeiro formato, o das pirâmides de Gizé (Queops, Quefren e Miquerinos), no Egito, Lula e sua mulher, Marisa, posaram para uma foto que tomará abrigo secular no álbum da história presidencial. O outro formato é o de uma pirâmide invertida, onde a base fica em cima e o topo, em baixo. Dela também se fez um registro no mesmo dia da foto da pirâmide normal. Mas a pirâmide invertida, ao contrário da beleza das pirâmides egípcias, não foi apresentada por meio de um ícone, um desenho, mas por gráficos de pesquisas que, mais uma vez, detectaram a paisagem do governo Lula: a política econômica, como base mais sólida da administração, ocupa o alto da pirâmide, e as políticas sociais, tênues e fragmentadas, estão lá no sopé.

Uma pesquisa feita pela GT Marketing e pela CEPAC junto a formadores de opinião em todo o País procurou avaliar o ministério do Governo Lula. Os resultados atestam o que tem sido o maior motivo de críticas da administração petista: a força da política econômica e a fragilidade da política social. Convidados a atribuir uma nota de 0 a 5 para os ministros, os formadores de opinião elegeram o ministro da Fazenda, Antônio Palocci (3,89), o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues (3,50), e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan (3,39), como os líderes da ação governamental. Na lanterninha, ficaram os ministros da Previdência, Ricardo Berzoini (2,34), da Educação, Cristovam Buarque (2,11), da Saúde, Humberto Costa (1,66), do Trabalho e Emprego, Jaques Wagner (1,61), e do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto (1,28). Outros nem foram considerados

Ora, a avaliação feita por formadores de opinião bate com os resultados de mais uma pesquisa do Instituto Sensus, divulgada pela Confederação Nacional dos Transportes. O que chama a atenção nessa pesquisa é o forte teor de indignação que se extrai dos dados. Na percepção da população, a violência assume uma posição de extraordinária gravidade, fato que certamente está por trás da espantosa (88% dos entrevistados) aprovação da redução da idade penal para 16 anos. Ou seja, a sociedade busca meios que julga mais efetivos para combater a criminalidade. Vejam só: mais de 50% tiveram parente, amigo ou conhecido como vítimas de assalto, no último ano. Quanto à corrupção, a percepção é a de que o Brasil não só é o país mais corrupto do mundo como o Poder Judiciário é o mais corrupto. A percepção difere da realidade. Como o Poder Judiciário, nos últimos tempos, tem sido objeto da lupa midiática, a percepção é a de que os juízes são mais corruptos. É também uma forma de indicar que a corrupção, de tão generalizada na área política, já se tornou coisa banal. Ninguém nem mais percebe. O Judiciário, ao contrário, fechado em sua redoma, quando submetido ao exame de vísceras, mostra partes podres, o que provoca maior impacto. Assusta ver um poder sagrado e intocável jogado na vala comum dos pecadores.

São visíveis nas pesquisas os limites entre os territórios da economia e das políticas sociais. O elemento integrador dos dois espaços é o próprio Lula. A população, ao continuar atribuindo boas notas à avaliação do governo como um todo, leva em consideração o perfil do presidente, sujeito carismático, disposto, sincero, corajoso e, agora, um vendedor que corre mundo a abrir fronteiras exóticas, como essas do Oriente, falando das coisas do País, tocando um mundo distante e que desperta muita curiosidade. Ou seja, Lula ainda não foi contaminado pela má avaliação dos programas sociais de seu governo. Nem mesmo o desemprego em alta afeta a imagem presidencial. É como se um véu de encantamento – nesse caso, um véu concreto de tecidos orientais – nos espaços litúrgicos de danças, cores, ritmos e sons estranhos, palácios e pompa, cobrisse no cérebro nacional a parte crítica, dando-lhe licença para funcionar somente após as festas natalinas e a entrada do Ano Novo. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)