Início de ano! Balanços críticos de 2003. Previsões para 2004. Pululam, na imprensa nacional, expressivas avaliações. O governo Lula gerou críticas mais contundentes e análises mais agudas. Expressivos sinais dos tempos presentes e dos tempos futuros.
Declarações de José Sarney, segundo homem da República, foi o fato marcante do fim de ano. “Você tem um país que tem 70% do seu esforço nacional concentrado a pagar juros e serviços da dívida, é impossível isso. Ou se inverte isso ou estamos condenados a renunciar ao destino nacional. Com esse modelo, que estávamos seguindo, não íamos chegar a lugar nenhum. Íamos chegar a uma tragédia, que é essa a que já chegamos: ficar sem perspectiva.” Abre o debate de 2004. Critica a falta de horizontes do governo e clama por avanços políticos. O núcleo duro do governo Lula fingiu que não ouviu. Tremenda saia justa. Fato histórico que merece destaque: José Sarney coloca-se à esquerda de Lula. Fim de ano surrealista. Para nenhum bicho grilo, ou punk, ou mano, botar defeito. É o país dos políticos doidões... “Sem marola! gritaram todos amedrontados. Um ano de salamaleques ao setor financeiro e logo Sarney querer bancar a Heloísa Helena!”
Lula, por incrível que pareça, falou pouco. Refez promessas ao povão. “Na solenidade do Planalto a mesma sensação que tenho ao longo de tantos governos: nas “ruas”, só críticas; nos palácios, tudo está uma maravilha, jamais houve presidente melhor, nunca o país avançou tanto”. Sensações da talentosa Eliane Catanhêde, que vive a política de Brasília.
Lula empurrou as explicações para Antônio Palocci. Entrevista ambígua na imprensa nacional. Uma no cravo: “Vamos parar com essa história de que acabou o ajuste fiscal. Acabou nada!”. A ortodoxia vai continuar. Outra na ferradura: “O Brasil já cresceu a taxas baixas e já cresceu a taxas altas, mas nunca distribuiu renda. Por ser uma liderança que conversa com todos os segmentos, o presidente Lula pode liderar o grande pacto que o Brasil precisa”. Para distribuir renda será preciso um pacto social. Já ouvimos esta conversa antes. Alinha promessas: baixar o custo do crédito, completar o marco regulatório e investir em infra-estrutura. Quando? No futuro...
Ano de barriga cheia para banqueiros. Babaram de ganhar dinheiro. Roberto Setúbal, presidente do Banco Itaú, rola elogios. Afirmara, na reta final da eleição, que a vitória de Lula não representaria ruptura. Para Setúbal, os pontos altos do governo foram o controle da inflação e a gestão macroeconômica que permite visualizar juro reais cada vez menores para os próximos anos. Não vê pontos negativos. Nem passa por sua cabeça se preocupar com a queda de 15% das rendas dos trabalhadores e das classes médias. Não está nem aí com seiscentos mil novos desempregados gerados pela política ortodoxa.
A oposição continua sem rumo. “O PT se apropriou do seu discurso quando iniciou o caminho em direção ao centro, empurrando o PFL ainda mais para a direita e o PSDB, por enquanto para o vácuo”. Os tucanos ficaram sem eixo para construir diálogo com o eleitorado. A oposição tem mais imagem de colaboração de que de oposição. Conseguem no máximo fazer a crítica da condução das políticas sociais iniciadas no governo FHC. Muito pouco. Arremata a talentosa Dora Kramer: “A discussão a respeito das autorias realmente não emociona a grande massa. Fica difícil aos tradicionais habitantes do centro encontrarem um nicho para atuar”.
Críticas contundentes brotam inesperadamente. César Benjamin, fundador do PT, vai fundo na crítica: “Estamos assistindo ao fim de um ciclo de existência da esquerda brasileira, cuja crise é profunda. É uma crise de prática, pois a esquerda rompeu seus laços de convivência e solidariedade com o povo; é de valores, pois ela respira hoje a cultura do pragmatismo, do oportunismo e do individualismo; é de pensamento pois neste contexto perdem-se de vista os verdadeiros problemas e potencialidades da sociedade brasileira”.
Marcelo Coelho trucida com elegância: “De FHC a Lula, o narcisismo bom de bico dá lugar a um contentamento de churrascaria; a arrogância no estilo da revista “Veja” cede às emoções mais autênticas de “Caras”, e o cinismo ilustrado se desmancha em lágrimas de pura parvoíce”. Novas alternativas políticas vão ser construídas... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)