09 de julho de 2026
Cultura

Música: o que valeu a pena em 2003

Gabriel Garcia e Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

O ano de 2003 foi o da consolidação de alguns fenômenos na música e na indústria musical brasileira. Mega-investimentos em alguns - poucos - artistas e outros trocando grandes gravadoras por selos independentes. Neste grupo, ainda existem artistas que permanecem nas grandes empresas levando sua carreira com liberdade quase total. O restante não fugiu à regra, exceto por um ou outro lançamento.

No primeiro caso, o destaque do ano foi a cantora “filha de peixe” Maria Rita. Do nada, ela apareceu no último disco de Milton Nascimento, e quase do nada, seu primeiro CD já estava nas prateleiras das lojas. Sim, a voz é muito parecida - e boa. E sim, o gestual e a postura no palco chegam a ser artificialmente idênticos aos de sua mãe, a diva maior Elis Regina.

O marketing da gravadora foi pesado e provocou até dispensa de artistas, na desculpa de direcionar os investimentos a ela. Deu certo: o CD chegou ao “disco de ouro” em poucas semanas e ainda puxou o lançamento de um DVD que também é recordista de vendas.

No rastro, as concorrentes começam novamente a investir em novas cantoras, como Vanessa da Mata, que teve seu primeiro (e bom) disco relançado e até música na novela das 8h.

Milton, padrinho artístico de Maria Rita, foi um dos que desceu do barco das gravadoras e começa a apostar na carreira independente. Junto a ele estão Maria Bethânia, Gal Costa e até Ed Motta - que está na Trama, não independente mas menor do que sua antiga Universal Music. Até o É o Tchan partiu - ou foi deixado? - e lançou CD nas bancas, no esquema ”Lobão / faça você mesmo”.

Na busca por maior liberdade, controle da carreira ou contas bancárias mais recheadas, eles se aventuraram. O ano que começa vai mostrar se foram casos isolados ou se esta é uma mudança no cenário musical brasileiro.

Cumprindo ou contrariando as expectativas, duas bandas lançaram discos que podem ser destacados entre os melhores do ano. “Cosmotron” do Skank misturou Beatles, Beach Boys, psicodelia e Clube da Esquina no melhor disco da banda até agora, fugindo de hits fáceis e ainda assim agradando a todos. A bela “Dois Rios” e a energética “Vou Deixar” ganharam as rádios e ainda deve vir mais. Com este disco, os mineiros mostraram porque são hoje um dos maiores nomes do rock nacional.

Na mesma linha, o Los Hermanos soltou seu “Ventura”, menos experimental e mais pop que o disco anterior. Sua passagem por Bauru, no último mês, é a demonstração de que a banda ressurgiu depois do fantasma de “Anna Julia” e leva consigo uma legião de fãs devotados.

Um pouco menos empolgado foi “O Silêncio Q Precede O Esporro”, primeiro disco d’O Rappa sem Marcelo Yuka, principal letrista da banda até então. Mesmo com a inventividade típica e a produção impecável, a sensação é de que falta alguma coisa nas composições - que ainda permanecem com o tom político-social que a banda sempre teve.

Do Rio de Janeiro, Marcelo D2 mostrou que sabe que não está aqui a passeio. “À Procura da Batida Perfeita” consegue com maestria fundir o rap e o hip hop com o melhor do samba e do funk. Disco inspirado - considerado o melhor do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) - que fugiu do óbvio e da fórmula do Planet Hemp com muita criatividade nas letras, nos samplers e nas melodias.

Invasão

Se eles vieram para ficar, ainda não é possível dizer. Mas 2003 foi o ano dos artistas e bandas de e para os teens. Do pop do Rouge, BR’OZ e Luka ao rock do CPM22, Detonautas e os “veteranos” do Charlie Brown Jr., a lista passa ainda por B5 e Felipe Dylon, que definitivamente tomaram conta da programação das rádios e da MTV.

Parece que esta galera deu aos adolescentes brasileiros a alternativa que eles precisavam para construir seu gosto musical fugindo de bandas e artistas “adultos”.

Nesta lista, ficam de fora os micados Sandy e Júnior e Wanessa Camargo. A duplinha veterana voltou da “carreira internacional”, lançou o disco “Identidade” que não vendeu o esperado, passou por todos os programas de TV e só merecem citação pelo filme “Acquaria”, a primeira ficção-científica produzida no Brasil. Wanessa teve seu reality show na MTV - com audiência pífia, prometeu DVD e CD ao vivo, cumpriu tabela no mais micado “Jovens Tardes” mas todo mundo só olhou mesmo para suas escapadas com atores da Globo.

Outros que não trouxeram nada de novo foi o Jota Quest, que entregou seu “MTV ao Vivo” com apenas algumas canções novas, inclusive “Amor Maior” como uma das mais executadas do ano nas rádios. Mas os sucessos antigos ficaram exatamente iguais ao que eles fazem desde que apareceram por aqui. Foi a oportunidade perdida de reinventar o som da banda.

Entre mortos, acústicos e feridos com a pirataria tomando aproximadamente 58% do mercado, 2003 não foi ano de grandes vendagens. Valeu pela demonstração de que ainda há cabeças criativas - ou pelo menos esforçadas - na MPB, no rock e no pop brasileiro.