09 de julho de 2026
Bairros

"Tem muito artista anônimo em Bauru"

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

“Está muito difícil romper a barreira do anonimato.” A afirmação é do escritor Lázaro Carneiro, 53 anos, autor do livro “O Caipira que leu Nietzsche”, lançado em 2003.

Aposentado e morador dos Altos da Bela Vista, Lázaro se considera um artista anônimo. “Porque as pessoas que sabem que eu escrevi um livro e que eu faço poesias são pessoas do meu convívio. Então, eu acho que eu ainda sou um anônimo”, explica.

Na opinião de Lázaro, há muitas pessoas em Bauru na mesma situação. Ele afirma que há muitos talentos espalhados pela periferia de Bauru. “São pessoas anônimas como eu”, ressalta.

“As pessoas deveriam vasculhar a periferia. Tem muita coisa boa na periferia. Tem pessoas que cantam, tocam, escrevem. Tem outros tipos de arte; muita manifestação artística que está esquecida. Não só na periferia, mas em outros lugares da cidade”, emenda.

O poeta conta que foi descoberto por um aluno da Universidade Estadual Paulista (Unesp) que leu uma de suas poesias na coluna “Ao pé da letra”, do JC Cultura, e o procurou. A conversa resultou num CD de Lázaro Carneiro, gravado pelo Coletivo Samacô.

O livro, em que explora a cultura regional, começou a ser escrito já durante sua aposentadoria e foi publicado com recursos do próprio autor.

“Estou satisfeito não só com o livro, mas com a minha maneira de preservar a cultura caipira, estar sempre escrevendo. O meu objetivo era fazer com que não se perdesse a cultura caipira”, expõe.

Lázaro conta que procurou a Prefeitura de Bauru quando do lançamento do livro para pedir apoio. Conseguiu apenas o espaço para solenidade. “É muito pouco. Eles poderiam fazer muita coisa mais”, reclama.

“A Secretaria da Cultura não tem a política de garimpar valores na periferia. Não tem espaço. Eu acho que poderia ter uma política mais agressiva de incentivo à cultura”, sugere.

Para o poeta, os poucos artistas que têm surgido no cenário bauruense conseguiram despontar a partir de esforço pessoal. “Não tem políticas públicas que incentivam. A pessoa tem que se ralar muito. As pessoas precisam ser muito ousadas para aparecer”, enfatiza.

“O poder público não precisa botar a mão no bolso e financiar. Mas precisa liderar e incentivar movimentos. Estamos precisando de agentes culturais em Bauru”, acrescenta.

O escritor se considera ousado por ter publicado “O Caipira que leu Nietzsche”. “Paguei uma fábula para fazer o livro. Não teve incentivo, não teve financiamento de ninguém. Se eu conseguir ganhar com ele o que eu paguei, está ótimo”, afirma.

Ainda assim, tem planos de publicar um segundo livro. Desta vez, será baseado em causos de assombração. “Quando eu me livrar do prejuízo desse, eu vou fazer outro.”

Lázaro, natural de Pederneiras, mas criado em Bauru, escreveu seus primeiros textos ainda na adolescência. Apesar do gosto pela escritura, não tinha como meta publicar um livro.

“Naquela fase de fazer alguma poesia para a namoradinha, coisas desse tipo. Nessa época, eu nem sabia que se podia escrever um livro. Depois de muito tempo é que eu fiquei sabendo que qualquer pessoa pode escrever um livro”, conta.

Segundo ele, para o caipira, o livro sempre foi algo muito distante. “Escrever um livro, hoje, já não é um grande tabu como se pensava há 30 anos”, expõe.