09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Esclarecendo professores do Estado de São Paulo


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Este esclarecimento visa informar os(as) professores(as) do chamado Ensino Público do Estado de São Paulo, no quanto foram vilipendiados pelos sucessivos governos após 1964 e até nossos dias (2003). Vamos dividir este esclarecimento em três partes: 1. Como se construía um professor do Ensino Médio (décadas 50-60) - Em primeiro lugar se cursava uma boa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e nós de Bauru agradecemos ter feito a Fafil, hoje USC, onde nossos professores lembravam, todos os dias, que nada adiantava formar sem saber pois havia um Concurso de Ingresso altamente seletivo. Na realidade, saímos professores feitos da Fafil.

2. Como era o Concurso de Ingresso - Ingressamos pela Constituição Federal de 1946 (bem mais realista do que essa colcha de retalhos de 88, ainda não regulamentada), que era democrática, onde determinava que os catedráticos do Ensino Superior e Médio oficiais terão seus cargos providos mediante concurso público de provas e títulos, aos mesmos dar-se-á vitaliciedade (irremovíveis) e aposentar-se-ão aos 25 anos de magistério (depois virou expectativa de direito e não direito adquirido - sofisma). O concurso era presidido por um catedrático da USP, da área, e completado por dois professores efetivos do Estado. Vamos ao concurso: constava de provas escritas dissertativas, prova de aula e em algumas disciplinas, prova prática.

a) prova escrita: a lista preparada pela Banca Examinadora era publicada 5 dias antes da prova no Diário Oficial do Estado, constando normalmente de Monografias e Teses da USP, por exemplo: A expansão geográfica dos Estados Unidos no século XIX. Na hora d aprova, os números dos temas eram retirados da sacola por um candidato, um a um e o que sobrasse no fundo era o “sorteado”. Tínhamos 4 horas para dissertar o tema, para tanto tínhamos tantas folhas de almaço desejadas. Ao término a prova era colocada num envelope lacrado e assinado pela banca e candidato.

A leitura da prova, perante a banca e o público, era feita no salão nobre da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antônia, assistida principalmente por seus alunos. A leitura era seguida pela secretária da Banca para evitar interpolações ou saltos. Ao término era argüido pela Banca (quantos minutos desejassem) e novamente a prova era lacrada/assinada e guardada para a apuração. O resultado, as notas saíam no Diário Oficial e a nota mínima era 4,0 para continuar as provas seguintes: era eliminatória...

b) prova de aula (didática): O Diário Oficial publicada uma lista de temas para a aula prática e nós, sempre nos deslocando para São Paulo, sorteávamos 24 horas antes e íamos enfrentar a classe que jamais havíamos visto, com a Banca Examinadora sentada no fundo da classe. Preparávamos o material didático, por exemplo o tema: Os lagos e suas origens. Novamente o Diário Oficial publicava a lista dos aprovados para continuar o concurso, caso existisse a prova prática.

c) prova prática: no caso de Geografia tínhamos a prova de Cartografia Interpretativa com Estatística ou Mapeamento. A lista saía no DO 5 dias antes e na hora, outra vez era sorteado, por exemplo: A evolução da população francesa no século XIX, a partir de tabelas construir gráfico (geralmente tridimensional) e interpretá-lo.

O resultado final era feito pela Banca na Secretaria da Educação (Praça da Sé) e tinha um ritual específico que, nós que estávamos na 3.ª prova, íamos assistir. A Banca ia fornecendo as notas e ao final a média de aprovação, juntando-se os títulos. Imaginem nosso sofrimento em conta-gotas... Mas ao final valia a pena, o que narraremos a seguir.

Para desenvolver a imaginação de vocês vamos contar:

- O concurso de História (1959) foi presidido pelo prof. dr. Sérgio Buarque de Hollanda, bi-catedrático da USP (História Econômica da FEA e Civilização Brasileira da Filosofia). De 250 professores licenciados por faculdades foram aprovados 11 (4,4%), eu em 3.º, a Maria José Zoppelari em 5.º e a Serleu Acaui em 6.º mais de 27% do Concurso (todos da Fafil). O Concurso de Geografia (1959) teve a presidência do prof. dr. Ary França, catedrático de Geografia Regional da Filosofia/USP e, de 450 professores licenciados, passaram 28 (6,2%), eu em 5.º lugar, mais o Neuton Dezoti.

3. Como era ser professor de “Ginásio do Estado”- Éramos uma elite intelectual, muito respeitados nas cidades em que escolhíamos “cadeira” (cátedra).

Como era ser professor?

Ganhávamos um salário pela Cadeira de Geografia (12 aulas), outro salário pela Cadeira de História (12 aulas) e mais aulas extraordinárias (12) perfazendo 36 aulas. O salário? Era maravilhoso, vejam, em 1962, morávamos em Lençóis Paulista e o nosso tríplice salário era superior ao do juiz de Direito, ao promotor público e ao dos gerentes do Banco do Brasil e Banespa. Éramos chamados de “mandarim”, mas éramos apenas professores catedráticos...

Aí iniciou a catástrofe, governadores sucessivos foram aumentando as aulas até chegar a 18 obrigatórias, excluindo o 3.º salário. Em seguida a legislação que limitava os investimentos em Educação (o povo tem que ficar ignorante para ser massa de manobra mais fácil), como eterna desculpa, que o salário do professor foi achatando até hoje. Confiram conosco: Revista IstoÉ - 22.10.03 - professor de Ensino Médio: R$ 866,23; juiz: R$ 8.320,70 (a fonte é o MEC).

O salário do professor foi desvalorizado em quase 10 vezes.

O que acham?

Se os professores do Ensino Oficial não tomarem uma posição radical e real, cada dia que passa um governador e um secretário da Educação (geralmente teóricos e sonhadores ou essencialmente políticos), vão deixar a população que mais necessita do ensino público - mal informada e mal educada, vamos ser realistas. A maior parte dos professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem - é a promoção automática. Por que não voltam com o ensino técnico? É muito caro? Vejam a Entrosagem e Intercomplementaridade do Ensino Médio, publicado pela Editora do Brasil. Acredito, educação é cara e é difícil cobrar “pro labore”, como em construções de rodovias, hidrelétricas, mega edifícios e etc.

O que vocês vão fazer?

a) aceitar que os governadores os tratem como serviçais?

b) aceitar esse mini-salário?

c) aceitar que um professor aposentado deva ganhar menos do que um professor da ativa? Se aceitarem tudo isso, não reclamem pois vocês merecem... Em tempo: parabéns ao Curso de Geografia da USC que obteve conceito A no Provão. (Muricy Domingues - RG 4.427.750)