08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Se eu soubesse...


| Tempo de leitura: 1 min

Vinha caminhando, tranqüilo, por entre a multidão que enchia a rua. De repente, alguém puxou meus braços para trás, e dois homens passaram correndo à minha frente. Mais pressenti do que senti o leve movimento em meu bolso. Quando fui verificar, já não encontrei o dinheiro que acabara de retirar do banco para as despesas da semana. Fiquei sem aquilo que considerava certo, garantido, que me pertencia. Aconteceu comigo, o que acontece com os outros, e que me leva a comentários banais. “A vida é assim mesmo, que se vai fazer?” Os amigos me confortaram: “Vão-se os anéis, ficam os dedos, ainda bem que não o feriram.” Eu, após a perplexidade e a indignação, fiquei triste: “Se eu soubesse que ia ser roubado, teria aumentado minha contribuição aos pobres, ou teria dado esse dinheiro ao meu primo que está tão necessitado.” “Se eu soubesse” é o que dizemos, ou pensamos, sempre que algo que consideramos nosso nos é arrancado; a saúde, uma situação de prestígio, um ente querido. Quando, além da tristeza pela perda, vem aquele friozinho de angústia: “Se eu soubesse, poderia ter feito bem a tanta gente.” “Se eu soubesse, teria sido mais carinhoso, mais paciente.” “Se eu soubesse!...”

Entretanto, qual de nós ignora a fragilidade de tudo que nos rodeia até de nossa própria vida? Apenas fingimos não saber e nos dedicamos com afinco ao que se gasta, ao que se acaba. Deixamos de lado o único bem que perdura: o que fazemos aos outros, “o tesouro que a traça não come, a ferrugem não consome e os ladrões não roubam”... (João Álvares - da Academia Bauruense de Letras - cadeira n. 17 - patrono: Ivan Engler de Almeida)