09 de julho de 2026
Articulistas

Um perfil de Lula para 2004


| Tempo de leitura: 3 min

Demóstenes era gago, mas se tornou o maior orador grego, depois de treinar a voz, colocando seixos na boca e discursando diante das ondas do mar para desenvolver o volume de voz e aperfeiçoar a dicção. Uma vez, perguntaram a ele qual seria a principal virtude do orador. A resposta: “ação”. Surpreso, o interlocutor voltou a indagar: “e depois?” O grande tribuno não titubeou: “ação”. E não teve dúvida em dar a mesma resposta ante a insistência do amigo que queria distinguir as virtudes da eloqüência, como a sabedoria, a criatividade, a fluência ideativa, o senso de oportunidade e o domínio das multidões. Queria dizer que o discurso deveria conduzir os ouvintes à ação, não devendo ser um fim em si mesmo. Conta-se que quando Demóstenes falava, a multidão se punha em marcha, ao contrário da audiência estática, que se encantava, mas não reagia à fala culta de outro grande orador, o tribuno Cícero, célebre por ter enxotado de Roma o general Catilina com seu famoso discurso (“quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Até quando abusarás, Catilina, de nossa paciência?”).

Ao concluir o primeiro ano de governo, Lula passa a impressão de que, mesmo se libertando da língua presa, não domina a parte mais importante da lição de Demóstenes, a capacidade de gerar ação com a força da palavra. Sua expressão é a síntese de um governo escudado em metáforas e boas intenções. Os extensos discursos, incorporados à rotina de ambientes palacianos e palanques abertos, que deliciam platéias variadas, começam a enfeitar os espaços de banalização. Começa a cansar a liturgia de aplausos previsíveis – na verdade, ainda aclamação à história vitoriosa de um homem simples – com sua coreografia plena de salamaleques, encenações e arremates pictóricos. As falas parecem mais peças soltas de complexa engrenagem. A imagem é a de um maquinista conduzindo um grande trem sem perceber que os vagões estão despregados da locomotiva (...)

O Brasil de 2004 quer menos diagnósticos e mais soluções para os problemas do dia a dia. As avaliações do primeiro ciclo do governo apontam para a ortodoxia da gestão macroeconômica e para a debilidade das políticas sociais. Eis mais uma conclusão: o governo peca por falta de ousadia, por carência de audácia, pela débil determinação em perseguir seu ideal. Para qualquer lado que se olhe, a sensação é a de que o governo cozinha um tradicional feijão com arroz. Inexistem idéias inovadoras, abordagens diferenciadas, ângulos marcantes, capazes de expressar um diferencial. À semelhança de Maomé, Lula levou o povo a acreditar que poderia atrair uma montanha, no cume da qual rezaria a favor de seus fiéis.

Como Maomé, Lula deve ir ao encontro da montanha do crescimento. Para que isso ocorra, não basta falar de um Brasil melhor nos dias de amanhã. Precisa ser mais audaz para levar a economia exuberante dos grandes números aos trilhos da economia pobre das ruas. Há ações que são inegociáveis, sob pena de o País não avançar. Nos horizontes de 2004, divisam-se as reformas política, sindical, do Judiciário, o marco regulatório sobre o novo modelo para o setor elétrico e novas regras para projetos que envolvem financiamentos do setor público e privado. São decisões necessárias. O Brasil de 2004 espera que Lula seja mais Demóstenes e menos Cícero. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)