Café com leite, canela, com os amigos, apressado, com livros, música, arte e até com conserto de veículo. A bebida quente mais consumida no mundo ganha a cada dia combinações das mais variadas e inusitadas. Pelas ruas de Bauru é possível pagar de R$ 0,30 a R$ 1,50 por uma xícara. Mas no Japão, onde o custo de vida é mais alto e a bebida mais escassa, um café, que se toma gelado, custa US$ 7,00 (cerca de R$ 20,00).
O Brasil perde para os Estados Unidos em consumo, mas o povo brasileiro sabe como apreciar a bebida em suas muitas versões e apresentações, diferente dos americanos que tomam muitos copos de café aguado.
O tomar café vai muito além da primeira refeição diária. O hábito se torna pretexto para reunir os amigos, para discutir questões políticas, estimular o organismo após noites mal dormidas e para acompanhar o vício do cigarro.
Há quem diga que café vicia, mas pesquisadores admitem que a bebida faz é bem. Se não o fosse, não seriam vendidos em uma única loja de uma franquia de Bauru, mais de 150 expressos das 7h às 15h todos os dias, sem contar os capuccinos e cariocas, afirma uma das atendentes.
O horário de pico, ao contrário do que se possa imaginar, não é entre 7h30 e 8h30, mas sim das 9h ao meio-dia. À noite, o movimento também é grande e as pessoas se demoram mais.
Afinal, apreciar lentamente é um dos segredos para se degustar a bebida. “Tem que ter o prazer de tomar o café”, afirma o jornalista Fábio Fleury, que todos os dias toma café fora de casa. Ele confessa que não tinha o hábito do café-da-manhã, mas sempre consumiu duas doses de “café preto” religiosamente. “Gosto de tomar café a qualquer hora, até de madrugada. É revigorante!”
Entretanto, Fleury evita tomar inúmeros cafezinhos durante o trabalho para não estabelecer um vício.
Terapia
Quem também encontrou no cafezinho sua terapia foi o comerciante Marcos Sampaio que todos os dias toma café-da-manhã em sua casa, vai para o trabalho por volta das 9h, mas em torno de 10h foge 15 minutos para tomar um expresso simples e quando sobra um tempinho acompanha o café com a leitura de jornal ou revista. “É o meu momento de relaxamento”, define.
Dona de um café numa livraria, mas que já foi funcionária de uma cafeteria em meio à oficina mecânica de uma concessionária, Eleni Brusche aponta que a combinação café com leitura é um ótimo filão. “Tenho um público cativo dos livros com café. A turma da redondeza que vem tomar um suco, comer alguma coisa, acaba levando um livro ou material de papelaria.”
Os cafés em Bauru também ganharam cara de bar noturno e fazem sucesso na região sul da cidade.
Verdadeiros banquetes
Mas o ritual do café para muitas pessoas também se transforma num banquete onde à mesa são colocadas uma série de iguarias e até outras bebidas para acompanhar o cafezinho.
Há três anos uma chocolateria bauruense serve, em seu salão de chá, café colonial. Diariamente, os clientes podem escolher as opções do cardápio requintado.
“Bastou esfriar um pouquinho para todo mundo aparecer. Mas mesmo com o calorão tem muita gente que vem tomar chá e chocolate quente”, explica a funcionária Denise Maria Rocha.
Com som de cachoeira e piano, os clientes de um supermercado podem degustar café colonial e chá da tarde todos os finais de semana.
“Para fazer uma boa compra é preciso comer antes. Senão, o cliente pode comprar por impulso ou até esquecer parte dos itens da lista”, afirma Maurício Teixeira, responsável pela lanchonete da rede, que há um ano começou a oferecer café colonial farto e variado a R$ 5,90 por pessoa nas manhãs de domingo.
A aceitação foi tamanha que a sessão gastronômica foi ampliada para um chá da tarde servido aos sábados e domingos das 17h às 21h e que tem sido alvo de reuniões de amigos e empresários.
“Com o horário de verão, as pessoas gostam de comer mais tarde. Esperam o anoitecer.”
No cardápio, além do café expresso e de outras bebidas quentes, frias ou lights, a casa oferece uma mesa farta com pães variados, bolos e frios diversos, frutas e sanduíches.
“Não deixamos a desejar e seguimos os padrões das grandes redes hoteleiras da Capital”, explica Teixeira que é especialista no assunto e já trabalhou com chás e café colonial no Hotel Eldorado e no restaurante Rubayat, em São Paulo. Ele aponta que o café é um serviço diferenciado que só agrega valores.
Bilhões de xícaras
Quando Francisco de Mello Palheta trouxe da Guiana Francesa as primeiras mudas de café para o Brasil, jamais imaginou que essa cultura tivesse ciclos que fossem responsáveis por até 80% das receitas cambiais, muito menos que, 275 anos depois, o País fosse bater o recorde mundial produzindo 45 milhões de sacas, de um total de 108 milhões colhidas no ano passado. Trocando em xícaras, a produção brasileira equivale a 190,35 bilhões de cafezinhos expressos.
Um quilo de café torrado e moído pode render até 120 xícaras da bebida, se preparados de forma “suave e doce”, atitude repreendida pelo presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde Guimarães.
Ele aponta que o aumento no consumo e o crescimento das cafeterias ou “lojas de cafés” pelas cidades é conseqüência do investimento na qualidade do produto que sai das lavouras e do próprio preparo. Um quilo do mesmo café, preparado de maneira expressa, rende 90 xícaras da bebida, mais forte e encorpada.
Lima Verde ressalta que apesar do recorde de 2002, a produção média do café brasileiro oscila entre 28 e 30 milhões de sacas e apenas um terço deste montante é consumido no País.
“Precisamos mudar os hábitos de consumo em relação ao café. O jovem, por exemplo, não toma e muitas pessoas dizem que café faz mal. Mas estive recentemente em um congresso mundial e pesquisadores americanos comprovaram o poder estimulante da bebida, que aguça a inteligência e prolonga a vida. Chegaram ao cúmulo de compará-lo à cocaína, mas sem contra-indicação.”
Para os produtores, o grande desafio é fazer com que a produção seja integralmente consumida. A alternativa que será implementada neste ano é o investimento no mercado chinês.