10 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Um imperador na praça


| Tempo de leitura: 3 min

Gato, significado da palavra latina “cattu”, é esse animalzinho que mia, esfrega-se nas pernas de seus donos, dorme no período diurno para vagar durante a noite. Ele foi domesticado pelo homem, em tempos remotos, para combater os ratos que infestavam as casas e traziam as pestes.

Nas residências térreas, é muito difícil quem não tenha um gato, por escolha própria da gente ou por adoção que esse felídeo impôs ao morador. Demarcado seu terreno, através de urinadas feitas em pontos que ele limita, o gato nele impera, altivo e indiferente ao que ocorre com pessoas e coisas.

Na Praça D. Pedro II impera um gato branco, com três ou quatro malhas negras, espalhadas no seu corpo, na cabeça e no rabo. Há muito tempo eu vinha observando-o. No início ele era hostil a todos. Na praça, ele sempre agiu como um imperador, não obrigado a dar satisfação a ninguém, procurando água nas torneiras que servem para molhar as plantas quando tivesse sede, dormindo onde quisesse, caçando passarinhos quando sentisse fome e correndo de todos que se aproximassem dele, mesmo na tentativa de oferecer-lhe carinho.

Conhecendo-o, passei a lhe trazer ração e, quando almoço na cidade, levo pequenos nacos de carne. Mas o gatinho contraiu sarna que se alastrou pelo corpo. Seus admiradores, então, trataram de lhe arrumar remédio. Os pêlos do felino voltaram a brilhar, os vermelhões da sarna desapareceram e ele, com mais disposição, continua imperando na praça. De vez em quando desaparece, mas sempre retorna, ocupando um pedaço do jardim. E quem adotou o bichano?

Os jardineiros Nelson e José, que cuidam da praça, Ruy, motorista da Câmara, três sorveteiros, dois mais idosos, marido e mulher, e um jovem, que estacionam seus carrinhos defronte um ponto de ônibus, todos colaboradores para a manutenção do gato.

Os sorveteiros, pessoas com mais idade, moradores do Parque Jaraguá, seu Alcides e dona Maria, por causa do gato, tornaram pessoas de minha convivência, pois, sempre quando trago alimentos para o animalzinho, troco com eles palavras e deixo-os como depositários da refeição quando o animal ali não se encontra. Idêntico papel desempenha o jovem Cristiano, também sorveteiro, residente na Vila Nova Esperança.

O gato, antes arredio, atreve-se agora a ir próximo de qualquer um de seus protetores e aceita afagos, agradecendo com breves miados. Ele não tem nome, o branco de sua cor é encardido, e nunca tomou banho. Lava-se à sua maneira, com a língua e quando quer. Quando da época da vacinação anti-rábica tentamos aplicar-lhe a vacina. Mas não houve maneira de fazer isso. Tanto lhe dar um banho quanto vaciná-lo, é tarefa muito difícil para nós.

E lá está, na praça, o “gatimperador”. Doce mistério: a inércia aparente desse felino conseguiu aglutinar em torno de si, pessoas de diferentes lugares e de formação profissional diversa, que passaram a comunicar-se. Pessoas de sensibilidade assemelhada que, por causa do “gatimperador”, passaram a conviver e conversar. Antes dele, nunca haviam prestado atenção uns aos outros.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é escritor, historiador e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.