08 de julho de 2026
Ser

Muito mais que estimação

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

“Será que ele está bem? Será que está passando fome? Onde será que ele está? Está com sede? Com frio? Coitadinho...”, repetiu sem cessar Tiavina de Oliveira, 86 anos, tia da professora aposentada Zuleika Diniz dos Reis.

No anúncio, a foto de Chacal, um vira-lata, de apenas um ano, que estava com verme e realmente era submetido ao tratamento anunciado.

“Minha tia não se conformava. Por isso, fizemos o anúncio. Aqui em casa cada um tem o seu (cachorro), menos eu. Eu só dou o dinheiro para a alimentação de todos”, explica Zuleika. Todos, na verdade, são três cães: dois dogues alemães, Babalu e Eros, um de cada filho Erico e Ricardo, e o Chacal, da tia que mora com eles.

Ao sentirem a falta do animal, procuraram por todo o bairro onde moram, o Higienópolis. Mas Chacal só foi encontrado dias depois próximo à Maternidade Santa Isabel, nos Altos da Cidade.

“Imagine, o quanto ele andou!”, admira-se.

Chacal só foi achado depois que uma senhora que vira o anúncio no JC ligou para avisar que o animal em questão estava em meio a uma matilha, próximo à residência.

“Quando ele viu um dos meus filhos, saiu correndo desesperadamente. Como quem dissesse: sou eu mesmo.”

Zuleika dos Reis conta que a relação com os animais em sua casa é maternal mesmo. Eles têm um ritual de serem colocados para dormir todos os dias e, nas épocas de frio, a tia faz cabaninha para protegê-los. E até os bombeiros já foram chamados para resgatar Chacal que ficou entalado numa porta logo nos primeiros dias de vida.

Longa espera

A família Cavalheiro Amarília espera há mais de um mês o retorno da fox paulistinha Kami, 9 anos, que fugiu de casa numa rua movimentada no Jardim América. Kami é filha de Pitucha, que morreu há dois anos, mas viveu 14 com os Amarília.

“É muito triste em menos de dois anos ficarmos sem as duas cachorrinhas”, lamenta o estudante universitário Gustavo, 22 anos, o caçula da casa. Ele explica que ao sair para passear com Kami, ela sempre dava umas escapadas, mas numa noite de sábado, ela fugiu e não voltou.

“Como ela ficava quietinha e escondida em lugares que para a gente não eram tão notados, nós demoramos para perceber que ela tinha sumido de fato”, conta.

Eles saíram para procurar, também colocaram anúncio nos classificados, mas até o fechamento deste caderno não a encontraram. O estudante define a cadelinha como membro da família, alguém que conheceu desde a infância, que divide o sofá, que fazia festa ao chegar. “Uma criança pequena e levada, que quando você vai dar bronca faz uma cara que deixa você sem jeito. Você acaba se apegando.”

O estudante confessa que teve de bloquear o sumiço da cachorrinha para não atrapalhar seu período de provas na faculdade. Mas conta que nesta relação quem está sofrendo mais é sua mãe, a artesã Edna, que contava com a companhia de Kami, enquanto trabalhava.

“Estou muito triste mesmo. Ela era minha companhia e se foi por um minuto de descuido”, lamenta Edna, que acredita que alguém tenha pego Ka-mi ou que ela tenha sido atropelada. Afinal, a cachorra era inteligente e conhecia o caminho de casa.

Final feliz

Apaixonado por cães, o comerciante Rogério Garcia, 32 anos, chegou a apelar dizendo que o seu rottweleir Basílio era agressivo a estranhos e crianças.

O cão ficava na firma de Garcia e no dia 2 de dezembro o vigia deixou o animal escapar. Basílio acabou caindo no rio Bauru e precisou ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros.

“No final, fui achá-lo dois dias depois, a três quadras daqui. Enquanto colava cartazes em postes anunciando seu desaparecimento”.

O comerciante scaneou uma foto, fez uma arte e xerocou 50 cartazes que distribuiu pelas redondezas. Foi num bar que soube do paradeiro do animal de estimação. Rogério confessa que o cachorro é bem manso e quem o encontrou até ficou com dó de devolvê-lo. Mas sob gratificação, acabou entregando o Basílio.

Como nunca ficou sem cachorro, hoje Rogério tem em casa um filhote de bull terrier chamado Bisteca. Basílio está na obra de um cunhado, mas na casa de seu pai existem mais três cachorros que faz questão de visitar sempre. Na empresa, ele faz questão de lembrar que também tem mais dois. “Na minha família, cachorro também é gente.”

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Maioria dos cães tem índole fujona

Weimaraners, labradores, pitt bulls, fox, cocker, grandes ou pequenos, estes cães geralmente adotados como domésticos são de temperamento fujão, pois são animais de caça e a própria genética determina a necessidade de sair, explica a veterinária de Campo Grande (MS) Mônica Filomena Assis Souza, que é especialista em homeopatia e comportamento animal pela Escola Paulista de Homeopatia.

Até os poodles, aparentemente mais domésticos que qualquer outra raça, são animais de caça. “Na Europa, eles são usados para caçar patos”, comenta.

Entretanto, fatores externos podem provocar a fuga de um cachorro. “Um cão é superamigo do dono. Se ele resolve fugir e não é pelo temperamento dele, é porque está sofrendo muito na casa. E não é nem por maus tratos. Se o dono está passando por um problema muito grave ou se ausenta, isso pode incomodar o cão ao ponto dele fugir.”

A veterinária faz um alerta que 80% das fugas são por características mesmo e na maioria dos casos ocorre com os filhotes, que são fáceis de levar e de se deixar levar. Qualquer um que abra uma porta ou passe de carro acaba ganhando um novo amigo.

“A necessidade de abrir horizontes é grande, mas eles se perdem por não terem ainda maturidade suficiente para conhecer caminhos de volta. Mas uma separação, uma crise financeira, o estresse, a ausência, podem fazê-lo fugir.”

Para que os cães adquiram referências é preciso levá-los para passear. Primeiramente com coleira ou guia e depois só fazendo companhia para diminuir a necessidade de fuga.

Mônica aconselha que cão de companhia mesmo são lhasa apso, yorkshire, pequinês, “os barbudinhos” que são mais sossegados e companheiros e até não latem em apartamentos.

Ela revela que se o cão não volta é porque ele foi recolhido por alguém. Em segundo lugar, ele fica perdido mesmo e só na minoria dos casos o animal é atropelado.

Se realmente ele não voltar e os donos gostarem muito de animais, a veterinária aconselha que um outro cão seja adquirido.

“Hoje, o cão já está humanizado e você vai ter saudade dele como de um parente. Ao comprar outro, você não vai substituir aquele que se foi, vai ter saudade do mesmo jeito, mas vai ter companhia e sofrer menos”, pondera Mônica, que já presenciou casos de donos desenvolverem câncer em razão da falta de seu animal de estimação que desapareceu e não foi substituído. “É um caso extremo, mas acontece.”