Os índios terenas e guaranis que vivem na vizinha cidade de Avaí estão longe daqueles que sobreviviam da terra, quando da descoberta do Brasil. Totalmente aculturados, eles não conseguem sobreviver sem a ajuda governamental. O arado animal foi trocado por um arado mecânico e hoje eles contam com a ajuda da prefeitura que “empresta” o trator e da Funai que fornece o óleo diesel para poderem cultivar suas plantações.
A produção de determinadas aldeias não é suficiente para evitar que os mais antigos moradores desse País sejam totalmente independentes. Algumas famílias recebem cestas básicas através de uma modalidade chamada Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), voltada especificamente para os alunos matriculados nas escolas indígenas.
A nova modalidade é diferenciada da alimentação escolar destinada aos demais alunos na medida em que o valor per capita é de R$ 0,34 por aluno ao dia e o número de dias de atendimento soma 250. Em 2003, o município de Avaí recebeu três parcela da verba, uma no mês de novembro, no valor de R$ 462,40, e duas no mês de dezembro, nos valores respectivos de R$ 462,40 e R$ 578.00.
O último recebimento nem chegou a ser gasto e será remanejado para o início do ano letivo de 2004, segundo o prefeito. “Quando chegou o recurso, as aulas já tinham terminado.”
Ajuda não é suficiente
A descendente dos guaranis Raquel Ferreira Campos Marcolino é uma das beneficiadas com as cestas básicas distribuídas pela prefeitura de Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru). Com três filhos pequenos, ela recebe o básico, uma vez por mês, das mãos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
A distribuição de cestas da prefeitura é feita pela Funasa por uma opção do prefeito Reinaldo Rocha. “Eu prefiro que a distribuição seja feita pela fundação para evitar os critérios políticos. São eles que determinam as famílias beneficiadas usando como base a necessidade nutricional das crianças.”
Apesar de considerar que a cesta não é suficiente, a descendente dos índios diz que não pode deixar de recebê-la. “Ajuda, mas não dá para todo o mês.”
A mulher explica que o marido trabalha na roça, no cultivo de mandioca, milho, abóbora e arroz, porém o ganho não é suficiente para manter a família. “Falta incentivo. Sofremos com as intempéries.”
O cunhado de Raquel, o chefe Marcílio Marcolino, explica que na sua aldeia tem oito famílias e só uma recebe a cesta básica. “Nós plantamos para sobreviver, mas o governo poderia apoiar a gente por um ano, para que no período seguinte pudéssemos andar com as nossas próprias pernas”, reivindica.
De acordo com ele, o reforço do Estado vem através da Funai que fornece o óleo diesel para o trator arar a terra que será cultivada. “Nós não temos uma cooperativa para vender as mercadorias. Algumas vezes, comercializamos com o Ceasa.”
O guarani diz que pretende cultivar melancia. “Nós temos quem fornece o inseticida para controle de pragas e ele mesmo se compromete em comprar. A plantação de melancia rende o suficiente para sobrevivermos por seis meses.” Após a colheita da melancia, ele quer plantar batata.
Atualmente, a aldeia de Marcolino cultiva mandioca, milho e batata. “Mas não dá para sobreviver o ano todo”, lamenta.
Cacique sonha em plantar mais e ter independência
O cacique Jiasone de Camilo, 66 anos, acredita que poderia ampliar as plantações de sua aldeia, caso tivesse um apoio maior do governo. “Estamos nessas terras há apenas um ano. Nossa produção aumentou, mas dos 200 alqueires de terra, só seis estão plantados. Vamos cultivando aos poucos porque não temos fundos”, lamenta.
Para ele, a ampliação das plantações poderia significar o “adeus” ao recebimento de cestas básicas. “Se tivéssemos renda suficiente, não precisaríamos das cestas.”
Das 27 famílias da aldeia, duas recebem a ajuda da prefeitura. “São aquelas que têm crianças com problema de saúde.”