Deixando a realidade de lado, sejamos bem-vindos ao deserto do real. Com estardalhaço, “Matrix Reloaded” chegou às telas do mundo inteiro em maio como se fosse, de fato, a chegada do Messias. Contas feitas, foi um grande filme para o bolso dos produtores. A fita não passa de um pastiche confuso, com alguns grandes momentos, é verdade, mas com sabor residual de dèja-vu – ou falha no sistema, como queiram.
Discreto, “Matrix Revolutions” aportou nos cinemas em outubro, ficou algumas semanas, arrecadou uns trocados e quem assistiu já nem lembra mais do que viu. Clássico é “Matrix”, o primeiro. O resto é conversa mole.
Na sala ao lado, outros heróis dominaram as telas em 2003. Em março, “Demolidor” convenceu os fãs do Homem Sem Medo – apesar do sempre cafajeste Ben Affleck - em um filme simples que apresentou os personagens, alimentou boas cenas de ação e abriu portas tanto para uma seqüência como para o filme-solo de Elektra, interpretada por Jennifer Garner.
Em maio, os mutantes mostraram que seu primeiro filme, lançado em 2000, realmente fora apenas um trailer do que tinham a oferecer. “X2 - X-Men 2” é poderosamente superior a seu antecessor, com roteiro bem amarrado e baseado nas HQs “Deus ama, o homem mata” e “Arma X”, visual de encher os olhos e destaque correto aos personagens que os fãs querem ver e que rendem na trama: Wolverine, Vampira, a Fênix Jean Grey e o novato Noturno.
O diretor Bryan Singer se mostrou familiarizado com efeitos especiais e orçamento milionário para construir uma história coerente, consistente e que deixou o caminho livre para o terceiro filme, programado para 2005, que vai abordar talvez a mais dramática passagem da vida dos pupilos do professor Xavier: a saga da Fênix Negra.
Em julho, o gigante esmeralda decepcionou aqueles que aguardavam mais um filme-pipoca. “Hulk”, do diretor Ang Lee, tentou mostrar com sensibilidade - característica de seus outros filmes - o conflito do homem controlado em sua vida de pesquisador e transformado em monstro incontrolável. No entanto, o público só conseguiu mesmo reparar nos efeitos especiais – que no DVD parecem ainda mais artificiais.
Mundo virtual
No entanto, entre anéis, batalhas, elfos e dragões, outro personagem virtual mostrou que é possível integrar perfeitamente as criaturas criadas em computador com atores reais. Gollum, “interpretado” pelo ator Andy Serkis, ganhou o destaque que merece em “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, que fechou o ano concluindo a trilogia de filmes que deve se tornar a mais bem-sucedida da história do cinema.
Amarrando as pontas, o filme, com mais de três horas e meia, conseguiu impressionar, assustar e emocionar a platéia ao mostrar a conclusão da fantástica saga dos hobbits Frodo e Sam na cruzada pela destruição do Um Anel, e do mago Gandalf, do elfo Legolas e do, enfim, rei Aragorn na libertação da Terra Média das forças de Sauron. Se a ação e a emoção foram impressionantes em “A Sociedade do Anel” e “As Duas Torres”, tudo no terceiro filme é elevado à terceira potência, com interpretações tão dedicadas e batalhas tão grandiosas que fazem “Coração Valente” se esconder no fundo da prateleira de DVDs.
Contrariando outras trilogias – “Matrix Revolutions” e “O Retorno do Rei” são exemplos de conclusões perdidas – “O Retorno do Rei” fecha a saga entregando aos fãs e cinéfilos o melhor dos três filmes, na que pode entrar para a história como a melhor trilogia já realizada. O Globo de Ouro e o Oscar não devem esquecer o diretor Peter Jackson neste ano, mas se o fizerem, este será o exemplo perfeito para injustiça nos dicionários de cinema.
Dos bons filmes que apareceram em 2003, muitos partiram de um universo paralelo ao que ocorre de grandioso em Hollywood – dos milionários, apenas “Chicago”, vencedor do Oscar de Melhor Filme, merece alguma atenção. Mais pela trinca Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Queen Latifah do que por qualquer outra coisa.
“O Pianista”, um filme belíssimo sobre a solidão durante a 2.ª Guerra, rendeu um Oscar surpreendente à tocante interpretação de Adrien Brody no papel-título e recolocou Roman Polanski na confraria dos grandes realizadores.
O metacinematográfico “Adaptação”, calcado no roteiro de Charles e Donald (esse não existe) Kaufmann, também vencedor(es) do Oscar, vale pelo retrato inteligente da angústia que permeia o embate arte x capital e pela atuação esforçada de Nicholas Cage interpretando irmãos gêmeos.
E não há como não destacar as animações que aportaram nas telas brasileiras neste ano. “Procurando Nemo”, parceria salvadora da Disney com a Pixar (a mesma de “Toy Story” e “Monstros S.A.”) e “A Viagem de Chihiro”, do diretor japonês Hayao Miyazaki, são dois dos melhores filmes do ano. A garotinha japonesa levou o Oscar de melhor animação em 2003, e o peixinho deve ficar com o prêmio em 2004.
Marginais
Nós brasileiros, marginais nesse lance de cinema, podemos começar a comemorar o início de uma indústria. Que dez filmes da Xuxa ou dos tais Normais paguem uma fita inteligente, bem acabada e honesta como “O Homem que Copiava”, de Jorge Furtado, todo ano, e já será um bom começo.
Furtado, aliás, se mostra hábil em equilibrar o experimentalismo e a produção comercial de qualidade, como no filme em questão, e se arrisca com êxito na realização independente voltada para os teens (“Houve Uma Vez Dois Verões”, lançado em 2002 mas que somente neste ano alcançou as locadoras).
Na esteira da chamada retomada do cinema nacional, um fato de 2003 que merece registro é o sucesso de público e crítica de Julio Bressane (“Filme de Amor”) e Rogério Sganzerla - que morreu anteontem - com “Signo do Caos” no Festival de Cinema de Brasília: as fitas ainda não deram as caras no cerrado paulista, mas apontam um retorno à produção do “cinema de autor”.
O que também valeu a pena: a direção de George Clooney em “Confissões de uma Mente Perigosa”; “Dogville”, de Lars von Trier, e “Elephant”, de Gus van Sant: alguém aí viu?; “As Invasões Bárbaras”, de Denys Arcand: enquanto esperamos chegar às locadoras, vale assistir seu prólogo, “O Declínio do Império Americano”, de 1986.
O que não valeu a pena: Numa cidade onde circulam cerca de 20 mil universitários, os poucos e precários cinemas ignoram a produção à margem do circuito comercial e nos presenteiam com aberrações como “Cruzeiro das Loucas”.
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Outros lançamentos
• “Cold Mountain”, com Jude Law e Nicole Kidman, aposta certa no Oscar
• “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood, que em Bauru só deveremos ver nas locadoras
• “O Último Samurai”, com Tom Cruise
• “Master and Commander – The Far Side of the World”, com Russel Crowe e Orlando Bloom
• “Encontros e Desencontros”, de Sofia Copolla
• “O Sorriso de Monalisa”, com Julia Roberts, Kirsten Dunst e Julia Stiles
• “Diários da Motocicleta”, de Walter Salles, sobre parte da vida de Che Guevara com o excelente Gael García Bernal
• “Scooby-Doo 2: Monsters Unleashed”, que promete um visual mais sombrio e o retorno dos monstros clássicos do desenho
• “Doze Homens e um Segredo”, que traz a gangue de Steven Soderbergh de volta
• “The Terminal”, que retoma a parceria entre Steven Spielberg e Tom Hanks
• “Alexander”, de Oliver Stone, com Colin Farrel no papel de Alexandre, o Grande
• “Elephant”, de Gus Van Sant
• “Os Incríveis”, animação da Pixar que satiriza os super-heróis
• “Garfield”, o gato mais cínico do mundo em carne e osso
• “Shrek 2”, que vai mostrar os pais da princesa Fiona
• “A Feiticeira”, com Nicole Kidman
• “Cazuza”, que retrata a trajetória do músico
• “Olga”, de Jaime Monjardim com Camila Morgado no elenco