08 de julho de 2026
Articulistas

A capivara que ruge


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Viajar para o Rio de Janeiro é sempre bom. É a cidade mais linda do mundo, assegura o professor Muricy com a autoridade de quem já atravessou o Atlântico muitas vezes. Depois é que vem Iacanga, Veneza, Arealva, Itapuí... Fui preparado psicologicamente para ser assaltado. Aluguei o cofre do hotel para guardar o relógio comprado à prestação. Saía com o essencial e de cabeça baixa. Medo de balas perdidas. Para minha surpresa, só dei de cara com gente cortês, disposta a ajudar e mostrar caminhos. No centro histórico ninguém pedia esmolas. Apenas remuneração espontânea por algum tipo de serviço. Quando o semáforo fecha o trânsito a garotada monta uma pirâmide humana e, lá em cima, um deles exibe seu talento de malabarista com bolinhas de tênis. Há os que se dedicam ao trabalho de pendurar nos retrovisores externos dos veículos saquinhos de amendoins e confeitos. Na etiqueta colada pedem 1 real – “Para ajudar um desempregado honesto a sustentar sua família”. Flanelinhas, guardadores de carro, escrevedores de cartas, pregadores de botões ambulantes, vendedores de água gelada, todos a fim de ganhar algum, numa boa. Lembrei-me do homem entrevistado na TV que vive há 25 anos da “pesca” de objetos perdidos pelos banhistas em Copacabana.

Na praia da Barra fiz amizade com o João, barraqueiro. Todos os dias, cinco horas de viagem saltando de um ônibus para outro, desde São João do Meriti, ida e volta. Conseguiu um local próximo da praia onde guarda as traias. Caixas de isopor nas costas, gelo, latinhas de cerveja e refrigerantes, cadeiras e guarda-sóis para alugar, os paus da barraca, tudo transportado no muque. Um dia amanheceu chovendo e os fregueses não vieram. Horas depois o sol chegou e ficamos conversando na praia vazia. Soube por ele que o edifício em frente é do Ronaldinho. Logo depois de adquiri-lo mandou a mãe tomar posse da cobertura. Lá veio ela de Bento Ribeiro, com as irmãs, sobraçando trouxas de roupas e alguns badulaques. Barradas na portaria do condomínio de luxo, a mulherada rodou a baiana. Foi um escândalo. Fotógrafos, TV. No edifício ao lado a cobertura é do Gugu. Sumiu depois daquela entrevista forjada e esqueceu de acertar as contas com o seu João. O homem simples atribui o esquecimento “à vida atormentada dessas pessoas de muita ocupação”. Nesse dia de praia quase deserta ele me pediu para tomar conta da barraca enquanto ia pagar uma duplicata. Foi ele virar as costas apareceram dois gaúchos querendo caipirinha. Senti-me o próprio bar-man. Um dos fregueses, desconfiado com a minha brancura de cabelo e pele, perguntou o que eu fazia antes. “Professor universitário”. Quando me virei para pegar o gelo ouvi-o comentando com o companheiro: “Tu vês aonde foi bater o desemprego, tchê”.

O trenzinho do Corcovado estava repleto de americanos desembarcados de um transatlântico. Todos gordinhos, curtindo belas aposentadorias embora de profissões modestas. Conversei com um preto que se aposentara como carpinteiro. Todos os anos viaja pelos mares com a esposa loira, escolhendo roteiros diferentes. Registra tudo na sua câmera digital. Entusiasmou-se com o estranho fruto, enorme, pendente do tronco das árvores à beira dos trilhos. Expliquei que eram jacas. Ele entendeu que o estava chamando de “jackass”. Em inglês, é aquele caipira ignorante, de boca aberta com o que nunca viu. Esclarecido o mal-entendido voltou às filmagens. Desejava contar em casa que os brasileiros conseguiam comer aquela coisa espinhenta. Quando o trem passou por uma abertura na encosta da Floresta da Tijuca de onde se deslumbra a Lagoa Rodrigo de Freitas ecoou aquele “oh!” em todo o vagão. Lá de cima do Corcovado então, os gringos esqueceram de vez os 45 minutos de espera e os polegares que tiveram que sujar com a tinta da Polícia Federal, antes de deixar o porto. Essa tal de reciprocidade nas relações internacionais pode ser até um coisa tola. Mas também não podemos ficar bajulando quem nos trata mal, apenas por um punhado de dólares trazidos pelos turistas. Quem paga 11 bilhões de dólares só de juros anuais para investidores americanos, precisa ser tratado com mais respeito. Se não reagirmos, daqui a pouco vão exigir que os chamemos de “sahibs”, como no tempo da colonização inglesa na Índia. É preciso deixar claro para esses gringos que aqui, capivara ruge.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.