09 de julho de 2026
Política

Professor da USC leva tese para Londres

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

O professor da Universidade do Sagrado Coração (USC), Valdeir Vidrik, desembarca amanhã em Londres para expor sua tese de doutorado a convite da Universidade de Cambridge. Funcionário aposentado da antiga Companhia Energética de São Paulo (Cesp), ele vai mostrar a uma das mais conceituadas instituições educacionais do mundo que é possível desenvolver tecnologia planejada intencional a partir de investimentos baratos em locais sem sofisticação.

Ele aproveita a oportunidade para se reunir com o professor David Edgerton, docente da disciplina de história da ciência de tecnologia do Imperial College de Londres. A tese de Vidrik foi desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

O professor explica que, normalmente, se atrela a produção de tecnologia a laboratórios gigantescos com grandes núcleos de cientistas, aportados em estrutura cara. “Isso é verdade. Mas existe a possibilidade de se desenvolver tecnologia sem ser aquela acidental, na qual uma pessoa derruba um vidro com líquido e descobre-se que o produto é corrosivo”, conta.

Vidrik vai mostrar aos ingleses de Cambridge fatos reais que ocorreram durante sua vida profissional na Cesp e que provam que sua tese tem fundamento. “Chamo de estrutura mais simples os laboratórios de manutenção, que na verdade nada mais são do que oficinas de manutenção. Em que área? Na área de eletrônica. É uma área que se desenvolveu muito rapidamente e se faz presente em qualquer processo humano, da casa à indústria”, conta.

O professor mostra que no Centro Especializado de Manutenção da Cesp, em Bauru, nas décadas de 80 e 90, desenvolveu-se tecnologia a um custo barato num ambiente sem sofisticação. “O sistema elétrico brasileiro teve grandes problemas nessas duas décadas”, destaca.

Segundo ele, o País tinha dificuldades em sua balança de pagamentos e, com isso, criou-se bloqueios na importação de equipamentos e materiais eletrônicos. “Uma parte esmagadora do equipamento de automação das usinas hidrelétricas e subestações do sistema elétrico brasileiro era importada. E era eletrônico. A lei de informática piorou ainda mais a situação, dificultando a importação desses equipamentos.”

Essa situação, de acordo com Vidrik, provocou um sobrecarregamento nos laboratórios e oficinas de manutenção da Cesp, companhia responsável por usinas hidrelétricas de grande porte, dentre as quais Ilha Solteira, Jupiá, Três Irmãos, Ibitinga, Promissão, todas geradoras de energia para o Estado de São Paulo e sua circunvizinhança.

“Nessa época, os técnicos e engenheiros de manutenção passaram, num primeiro momento, a improvisar. Num segundo momento, essa improvisação foi planejada. Com isso, surgiu a inovação tecnológica. A partir daí, foram projetados equipamentos patenteados. O mais importante é que, projetado e testado dentro dos laboratórios da própria empresa, esses equipamentos passaram a ter aplicação imediata”, relata.

Vidrik cita, como exemplo, a produção de um equipamento que gerou uma despesa de US$ 50,00 e que protegia máquinas de US$ 4 milhões. “Por exemplo: ocorria erro humano na hora de fazer o sincronismo de uma máquina geradora. Se o operador colocava a máquina fora de sincronia com a rede elétrica, ela era totalmente destruída. E aí nós projetamos um relê de permissão de sincronismo, que custou US$ 50,00 e protegia contra estragos de US$ 4 milhões.”

Protótipo

O professor da USC lembra que toda vez que uma determinada usina ou subestação tinha um equipamento problemático que necessitava de alterações para melhorar o seu desempenho, o pessoal do laboratório estudava a situação, desenvolvia uma unidade protótipo, aplicava-a no local e a testava. “Depois dos ajustes, iniciava-se a terceirização do equipamento, dando conhecimento à indústria nacional dessa nova tecnologia.”

Ainda em fase de desenvolvimento, essa “estrutura doméstica” de fomentação tecnológica foi comentada por Vidrik no Centro de Gestão de Tecnologia da Universidade de Cambridge. “Isso gerou interesse a ponto de me convidarem, agora, para expor a tese de doutorado e contar como é que isso acontecia.”

Segundo o professor, o interesse de Cambridge reside no barateamento da produção de equipamentos eletroeletrônicos, hoje de alto custo. “Ora, se há uma forma de se fazer equipamentos mais em conta, com estratégias alternativas e simples, a indústria tem interesse.”