A despeito de toda a comoção nacional em torno do assunto, sou fundamental, terminante e definitivamente contra a “nova onda” de cotas reservadas para os negros em seu ingresso nas universidades. Acredito também que os negros de verdade, aqueles que têm orgulho da própria raça, também são contrários a este tipo de esmola. Certo que vivemos em um país de esmoleres de todo gênero. São os programas tipo “Fome Zero”, “Bolsa Isso”, “Bolsa Aquilo”, “Vale Isso”, “Vale Aquilo”. É o Natal dos jornaleiros, dos entregadores de pizza, dos lixeiros, dos carteiros, dos comerciários. São as “ações entre amigos”, as “rifas em favor de dona fulana”, os pedágios nas esquinas para as festas de ingresso dos jovens na universidade, além daqueles que se dizem arrecadadores de fundos para a cura de uma doença (sempre insidiosa) em uma criança (sempre criança, também), de cuja origem e certeza da existência apenas se conhece uma foto colada em uma cartolina amarrotada.
São os meninos e jovens, às portas dos supermercados, igrejas, cinemas, padarias e outros estabelecimentos achacando os incautos com seu clássico pedido de moedinhas. São os temíveis guardadores de carros, cobrando mais o direito do proprietário de não ver seu veículo danificado, do que propriamente a vigilância contra terceiros. Terceiros que em muitos casos, são os próprios guardadores. Será que os negros de verdade, aqueles que inflam o peito para falar de Zumbi, concordam em participar desta vala comum de obscurantismo e de beneficiários de esmolas? Recompensar desta forma os descendentes dos escravos (todos os negros, realmente o serão?) dos maus tratos impingidos aos seus prováveis antepassados, é mais uma dádiva transversa do generoso “sinhôzinho” a relembrar quem manda por ser dono do baraço e do cutelo.
O poder público deve criar as condições para que o negro (tanto quanto o branco, o índio, o mameluco, o mulato, o cafuso) se emancipe e busque seu futuro através de conquistas e não de esmolas. O pleito com certeza é outro e muito diferente. Ou ao menos deveria sê-lo. Eu não gosto muito da expressão porque despida de qualquer originalidade, mas plenamente cabível a este ponto : é preciso ensinar a pescar e não dar o peixe. O pleito correto não é a luta pelo privilégio da odiosa cota, mas sim aquela decorrente da exigência de oportunidades iguais de nascimento, de educação de saúde, de acesso aos equipamentos públicos. E, sobretudo, pela existência deste bem hodiernamente tão raro que é o emprego. E de um salário decente. Na outra ponta desta linha, negros, brancos, pardos, amarelos, índios, homossexuais, ateus, petistas, peessedebistas, malufistas, pagodeiros, dançarinas de expostas nádegas, além de outros exemplares da “raça brasilis”, disputariam apenas um quesito: o da excelência. Sendo nele vitorioso, seu ingresso na universidade estaria garantido.
Com emprego e salário decentes, cada um faz sua própria lenda pessoal virar realidade e por ela se responsabiliza sem dever favores a não ser à própria dignidade. Por final, os defensores da triste idéia criaram outra odiosa discriminação, excluindo da benesse das malfadadas cotas os indígenas. Não fosse a hipocrisia sinete emblemático em nosso país, aos indígenas deveria ser creditada igual vantagem. Vou mais além; como originais donos da terra, usando da mesma miopia intelectual dos hipócritas e demagogos, deveríamos nós ocupantes do território brasileiro pagar aluguel às remanescentes tribos indígenas. Afinal de contas, quem vivia neste solo, quando os primeiros portugueses aqui aportaram?
Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799 - E-mail: longines@uol.com.br