09 de julho de 2026
Articulistas

A economia em 2004


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A publicação dos indicadores econômicos relativos ao mês de dezembro do ano passado permite uma avaliação mais fina sobre o estado de nossa economia neste início de ano. O resultado final da arrecadação tributária do governo federal nos dá um bom indicador da magnitude do arrocho fiscal do primeiro ano do mandato do presidente Lula. Como o comportamento de estados e municípios não foi diferente, podemos avaliar que houve um aumento de mais de 2% de impostos na repartição do bolo do PIB.

Se considerarmos uma carga tributária de 37% sobre o PIB - resultante deste aumento nos impostos - e de um déficit fiscal nominal superior a 5%, também calculado sobre o PIB, chegamos à conclusão de que o governo apropriou-se de mais 42% de toda a renda gerada no Brasil. Este número fica pior ainda se considerarmos que os investimentos públicos foram quase desprezíveis. Os recursos absorvidos pelo governo transformaram-se em juros e gastos de consumo.

Os números de produção e comercialização de bens e serviços reafirmam que entramos neste ano com a economia em recuperação. Os valores relativos à agropecuária e ao comércio exterior mostram uma expansão vigorosa e em crescimento. Os preços internacionais dos principais produtos de nossa pauta de exportação continuam a subir de forma importante. Neste sentido devemos citar o impressionante reajuste conseguido nos contratos de longo prazo de fornecimento de minério de ferro para 2004. Esta “commoditie” era, até alguns anos atrás, uma espécie de patinho feio no segmento dos metais, com seus preços quase estáveis e oferta acima do consumo. O aumento deste ano foi superior a 18%!

Mas quando olhamos as estatísticas de produção e comércio dos bens dependentes do poder de compra do cidadão, os chamados bens de salários, o quadro é bem diferente. Iniciamos o ano sem nenhum sinal de recuperação importante. O quadro de emprego também é muito ruim – em São Paulo houve um aumento das demissões em dezembro - e qualquer recuperação mais significativa só deve ocorrer no segundo semestre. Uma boa mostra desta redução impressionante no poder de compra do brasileiro pode ser obtida da estatística de venda dos carros de valores superiores a R$ 45.000,00: apenas 30.000 carros ao longo de todo o ano passado!

Como já afirmamos nesta coluna, será esta realidade de renda muito deprimida, depois de uma queda de mais de 15% ao longo de 2003, que vai fazer com que a atual recuperação cíclica seja bastante lenta. Por outro lado, a grande maioria dos setores industriais voltados para o mercado interno operam hoje com uma grande capacidade ociosa. Nesta situação os investimentos neste ano serão muito reduzidos, o que também concorre para este cenário de recuperação medíocre nestes setores. Enfim, 2004 será um ano excelente para quem trabalha para o mercado externo, indústria e agropecuária, e ainda medíocre para os demais. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros é ex-presidente do BNDES e publicador do site Primeira Leitura)