No apagar das luzes de 2003, ficamos sabendo que a balança comercial brasileira fechou o ano com um superávit de nada menos do que US$ 24,8 bilhões, um recorde histórico. Por coincidência (será?), ainda na última semana do ano, duas outras notícias, ambas provenientes dos Estados Unidos, agitaram o clima de festas: previsões, feitas pela comunidade de informações dos americanos, projetavam um futuro sombrio para o Brasil; e - suprema ironia – a defesa sanitária americana admitia o primeiro caso registrado do mal conhecido como “vaca loucaâ€.
O anúncio dessas três notícias em seqüência - a primeira (do superávit) já esperada; a segunda (das previsões) como contraponto; e a terceira (a da “vaca loucaâ€) como surpresa - dá o que pensar. Talvez, elas não estejam necessariamente relacionadas, mas é difícil não desconfiar de manipulação, sobretudo da segunda.
Prognósticos, leitura da sorte, por meio de cartas, ou de quaisquer outros recursos, funcionando como oráculos, são comuns na história da humanidade, principalmente em épocas de crise. Porém, as informações divulgadas no final de 2.003, estão chanceladas por um conselho formado por 14 organizações americanas. Elas dizem respeito aos cenários político, social, econômico e institucional do Brasil, válidos até 2020!
Em síntese, prognosticam que teremos os seguintes cenários: problemas parecidos com os de hoje para controlar a inflação, dívida externa ainda grande, custo Brasil como um dos grandes entraves ao desenvolvimento e dificuldades institucionais para aprovar novas reformas. Completam o cenário sombrio: falta de dinamismo por parte do setor privado, permanência da “guerra†fiscal entre estados e da alta carga tributária; infra-estrutura e transportes, ainda deficientes; e, por último, incapacidade de liderar a América do Sul.
O sucesso do agronegócio, que é inquestionável, foi a única exceção admitida nesse exercício americano de futurologia.
Afora a audácia, acompanhada de clara intenção negativa, o que salta aos olhos é a desfaçatez das opiniões emitidas por um grupo de “estudiosos†que, dentre outros equívocos, lembro-me dos seguintes, já cometidos em outras ocasiões:
1) Houve previsão, nos anos 50, que o Brasil não seria produtor de petróleo, em condições de ser auto-suficiente;
2) Houve quem recomendasse que o Brasil inundasse a Amazônia, por meio de represas, para lá formar um grande lago;
3) Houve uma taxativa afirmação de que o programa de produção do álcool combustível seria um completo fracasso econômico e tecnológico.
Como a prática demonstrou que o caminho seguido, tanto na produção petrolífera e na de álcool tão bem como na preservação da floresta amazônica, foi o mais apropriado para o Brasil, é lícito concluir-se que a existência desse “estudo de futurologia†significa a tentativa de abalar, desmotivar, obstaculizar nosso desenvolvimento pois, voltando à primeira notícia, as exportações brasileiras (não somente as do agro-negócio mas também as de produtos manufaturados), estão incomodando nossos concorrentes dos países desenvolvidos e, como diz a sabedoria popular, “ninguém chuta cachorro mortoâ€. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - Fenadvb)