A confirmação de que neste ano não haverá desfiles de blocos e escolas de samba locais no Sambódromo está provocando descontentamento e reações em representantes de diversas áreas culturais de Bauru. Entre eles, entusiastas, carnavalescos, sociólogos e apreciadores do Carnaval de rua.
Para os amantes da folia popular, a ausência dos desfiles das escolas significa uma grande perda para a cidade. É o que pensa a socióloga bauruense Dora Girelli, que afirma que participar dos desfiles no Sambódromo é um direito da população e deve ser respeitado.
“O Carnaval é a única festa que reúne todas as áreas de cultura. Em quatro dias, temos muita história, além da presença de cantores, poetas, compositores, músicos e artistas plásticos - entre eles pintores e escultores. É a cultura popular que melhor atinge seus objetivos e que faz com que a população participe. É um meio de se ensinar e trocar cultura. O Carnaval é a alegria do povo”, defende Dora, que já escreveu sete enredos para escolas de samba de Bauru.
O líder comunitário do Núcleo Geisel Alan Carlos Ursulino de Paula compartilha da mesma opinião da socióloga, enfatizando que o Carnaval de rua faz parte da cultura bauruense. Ele critica a não realização dos desfiles do Sambódromo. “Esse espaço é o único onde as classes menos favorecidas podem passar horas de lazer. Infelizmente ele estará bloqueado”, lamenta.
Para Alan, a atual situação é de responsabilidade do poder público. “Acho que é uma grande falha da nossa administração e quem perde é a cidade, desde os moradores dos bairros até os hotéis, que não recebem turistas”, reclama.
Leonésia Estrozi Carvalho, que há décadas aprecia os desfiles, discorda do ponto de vista de Alan. Ela critica o fato de se creditar somente à Prefeitura Municipal de Bauru a ausência do Carnaval de rua e cobra maior participação por parte da população para a festa de 2005. “O povo quer tudo de mão beijada”, dispara. A foliã desafia todos os sambistas e interessados nos desfiles a se reunir para tentar recuperar o Sambódromo.
“Temos cerca de 5 mil pessoas nas escolas, que além de foliões, são pintores, pedreiros, enfim cada um sabe fazer alguma coisa. Em uma ação voluntária, todos poderiam ajudar a arrumar o Sambódromo. Eu faria uma parte, outra equipe poderia capinar e pintar e outro grupo ficaria responsável por construir os camarotes. E quem quiser desfilar, tem que ir atrás de sua própria fantasia, vendendo salgadinhos na rua, por exemplo”, reforça Leonésia.
Para Dora, o ideal seria a realização de um trabalho conjunto entre a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e a Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec). “Eu não sou a favor de que se dê muita verba para o Carnaval de rua, mas sim pela realização de um desfile organizado, cada um dando um pouquinho”, afirma.
“A prefeitura poderia fornecer a estrutura. Existe uma liga e ela deveria forçar as escolas a fazer eventos o ano inteiro para arrecadar dinheiro, além de buscar patrocínios”, defende a socióloga, propondo idéias para o próximo ano.
Apesar das diversas sugestões, a ausência, pelo terceiro ano consecutivo dos desfiles no Sambódromo, simboliza o fim definitivo do Carnaval de rua em Bauru para José Horácio Gonçalves.
“Acabaram de enterrar o nosso Carnaval e o túmulo é o Sambódromo. Está faltando dinamismo e entusiasmo, e não adianta culpar só a prefeitura, pois os próprios carnavalescos também se acomodaram”, reclama o carnavalesco. Desde 1976, ele se dedica a produzir fantasias, enfeites, projetar carros alegóricos e elaborar sambas-enredos para as escolas da cidade.
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Tradição local
O Carnaval de rua de Bauru teve início na década de 20, nas vias públicas da cidade. De acordo com o historiador e jornalista Luciano Dias Pires, a festa passou se tornar vibrante devido à influência de migrantes paulistanos, cariocas e mineiros, que vieram trabalhar na antiga Noroeste do Brasil. “No início, o Carnaval se concentrava em volta da Praça Rui Barbosa”, conta.
Nessa época, os jovens e os casais se reuniam em grupos e se juntavam aos blocos, que mais tarde deram origem às escolas de samba. Os carros alegóricos - que na verdade eram veículos enfeitados dos próprios foliões - circulavam ao redor da Praça Rui Barbosa, no Centro da cidade. Intercalando os carros, desfilavam os blocos carnavalescos. Segundo Luciano, um dos destaques era o bloco 13 de Maio.
Anos mais tarde, o Carnaval de rua começou a crescer e passou a ser realizado nas ruas 1.º de Agosto e Batista de Carvalho. Luciano lembra dos carros enfeitados, dos foliões fantasiados e das batalhas de confetes e serpentinas “Era tanta serpentina que os carros ficavam presos”, conta.
Da rua 1.º de Agosto, o desfile passou à avenida Rodrigues Alves. Ao mesmo tempo que o Carnaval de rua experimentava seu auge, estreavam os bailes nos clubes. “O Bauru Tênis Clube (BTC) foi inaugurado nos anos 20. Além dele havia o Bauru Clube e o Grêmio Bauruense. Depois, em 1939, surgiu o Automóvel Clube, e assim a cidade foi ganhando notoriedade em todo o Interior, com um Carnaval bastante animado”, explica Luciano.
As escolas começaram a surgir na década de 70, com o desaparecimento dos blocos. Em 1982, pela primeira vez, a avenida Nações Unidas foi palco dos desfiles das escolas de samba.
O historiador lembra ainda que nesse período, a cidade teve diversos clubes que realizavam os tradicionais bailes carnavalescos. Entre eles, BTC, Automóvel Clube, Grêmio Bauruense, Paulista, Country Clube, Bancários, Noroeste, Associação Luso Brasileira e o Bauru Atlético Clube (BAC).
O Sambódromo foi inaugurado em meados de 1990, se destacando como uma grande passarela do samba em Bauru. Em 2001, foi realizado o último desfile de blocos e escolas de samba da cidade.