“Quero trazer à memória tudo o que me traz esperança”.
Sempre me encanto e me espanto com o ser humano. Sua ânsia em ser, sua necessidade de ter e sua capacidade infinita de recomeçar. Já disse alguém, não me lembro quem, e creio até que fui eu mesma, que a vida é um eterno recomeço.
Dito assim, parece um lugar comum, contudo, dentro desse comum, há uma grande e incontestável verdade. Siga comigo, entra ano, sai ano, a vidinha da gente não muda muito, as dificuldades continuam, sem dar bola pro calendário, sem se preocuparem se faz sol ou chove, se as flores perfumam os dias ou se as noites são frias...
Todos sem exceção temos problemas, ora amenos, ora complicados. Todos passamos por dissabores, assim como temos alegrias, é verdade que nem sempre tão grandes como as tristezas. Sabemos que há aqueles que sabem se alegrar com pequenas grandes coisas.
Há ainda aqueles que não sabem ser gratos às bênçãos e estão sempre achando que a galinha do vizinho é mais gorda. Há os mais azedos e os mais doces. Passamos pela vida de formas diferentes. A vida é como uma obra de arte. Você pode amar ou odiar, ou pior, ser indiferente..
Pode enfeitar sua casa com ela, ou relegá-la a um canto qualquer. Pode vê-la sem dar atenção às cores, ou pode apreciar cada detalhe. Os enfoques que damos à vida certamente nos diferenciam e diferenciam a vida que levamos. Uns levam a vida, outros deixam-na levá-los.
Contudo, uma coisa é certa, nós seres humanos, quer otimistas ou pessimistas, quer sábios ou néscios, sempre temos a esperança que no iniciar de um novo ano, as coisas possam se renovar e mudar e se tornarem melhores, e os problemas possam ser mais amenos e que teremos em breve a solução daquilo que nos entristece a alma e nos pesa ao coração.
Pois bem, é essa faculdade humana que me assombra. Por causa dela, refugiados de campo de concentração sobreviveram e conseguiram refazer suas vidas. Doentes incuráveis, conseguiram driblar sua doença e ter uma sobrevida alegre e prazerosa.
Homens e mulheres marcados por desgraças, com tenacidade, foram capazes de superar dificuldades aparentemente intransponíveis e partir para outras experiências e serem vitoriosos, apesar de ... essa chama divina que permeia o interior do ser, nos capacita a viver, nos faz diferentes dos animais, e nos diferencia até de outro ser humano, quanto mais permitimos que as mãos divinas nos guiem.
Bobagem desistir. Maior bobagem ainda é deixar de acreditar. Bobagem maior resistir aos sonhos. O amanhã será sempre uma incógnita na equação do tempo. A vida é complicada, mas é boa!
Portanto, tratos à bola, 2004 está já conosco. Que seja bem vindo mais este Ano Novo! Que nos encha de fé, de alegria, de cumplicidade com a vida, e que possamos trazer à memória tudo aquilo que nos traz esperança! Quem sabe será o ano de novos rumos?
A autora, Ercília Pollice, é escritora, poeta, artista plástica e colaboradora de Ju Machado - Escritório de Arte.