10 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Milagres acontecem na pescaria


| Tempo de leitura: 3 min

“Estando em Miranda, Mato Grosso do Sul, eu e meu sogro, Venício Augusto Ribeiro, resolvemos pescar no Passo da Lontra. Lá, o rio Miranda é largo e profundo porque já juntou com as águas do rio Aquidauana.

Na chegada, fomos recebidos com alegria pelo Gaúcho, que nos convidou para pescar pintado em um curicho próximo. O Gaúcho disse que os pintados roncavam como porcada em baixo d’água. Pirangueiro tem barulho de pintado na cabeça.

Estávamos armando a barraca quando chegou um casal com uma filha de 10 anos, vindos de Miranda. Ele insistiu muito para que eu fosse pescar com eles no dia seguinte. Pedi mil desculpas, eu queria ouvir o ronco dos pintados.

Saímos bem cedo, linha 80, anzol 10 encastoado, isca viva. Primeiro arremesso, piranha caranha tamanho de um prato. Segundo arremesso, piranha de novo. Disse o Gaúcho “é melhor irmos embora, as piranhas não deixam a isca chegar no fundo”. Voltamos. Do rancho aberto saiu um casal jovem muito alegre que nos foi apresentado como o sobrinho do Gaúcho com a esposa.

Contou-nos o sobrinho do Gaúcho que, de manhã, o casal e a menina saíram com o bote em alta velocidade. A menina no bico do bote a um metro de altura da superfície. Ele olhou para a esposa e disse que aquilo não ia terminar bem. Pouco depois, voltaram em alta velocidade, a mulher desesperada, gritando com a menina toda molhada e ensanguentada nos braços.

Contou o pai da menina que, com o balanço do bote, a menina caiu na água. Ele sentiu quando a hélice do motor bateu na menina. Em alta velocidade, demorou para reduzir o motor e voltar em marcha lenta, rio acima, procurando o corpo que havia desaparecido na água. A mãe viu a camiseta vermelha da menina abaixo da superfície, conseguiu resgatar a menina pegando pela camiseta. Disse o sobrinho do Gaúcho que a hélice cortou as costas da menina em vários pontos e que abriu um buraco na cabeça da menina, que olhando, dava para ver o cérebro pulsando.

Pescamos mais dois dias, não esquecíamos do acidente por um minuto. Voltamos para Miranda. Nossas famílias já sabiam do acidente, disseram que a menina estava bem, que já estava em Miranda com os pais. À noite, fomos fazer uma visita. Qual foi nossa surpresa, a menina com a cabeça toda enfaixada, comendo pipoca e assistindo televisão. Disse o pai que foi a Campo Grande, onde uma junta concluiu que não podia fazer nada pela menina, inclusive o irmão, médico da Aeronáutica, que veio de jatinho do Rio de Janeiro para participar da junta médica. Como não havia transplante ósseo na época, disseram que o próprio organismo fecharia o buraco com o tempo.

Parece mentira, mas seis milagres aconteceram:

1º - Encontrar o corpo da menina no rio tão largo e profundo.

2º - Não morrer com a pancada da hélice.

3º - Não morrer afogada.

4º - Não ser atacada pelo cardume de piranhas com o corpo sangrando.

5º - Suportar três horas de viagem, com calor e perdendo sangue.

6º - Eu não ter ido pescar com eles. No bico do bote, em alta velocidade, a um metro de altura da superfície da água, talvez eu não estivesse aqui para contar histórias.”

Antonio Roldão de Abreu é o mesmo que contou a história “Quem não tem medo da onça pintada”.