08 de julho de 2026
Geral

Pára-quedismo busca apoio popular

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 11 min

O bauruense Paulo Assis é um dos esportistas mais conceituados e premiados em uma modalidade, o pára-quedismo, consagrada pelo radicalismo, espírito de aventura e adrenalina, mas ainda pouco difundida quando comparada àquelas que contam com milhões de admiradores no Brasil, como o futebol, o vôlei e o basquete.

Por isso, Assis, engenheiro civil de formação e pára-quedista de corpo, alma, coração e profissão, aprendeu a conviver com as dificuldades desse esporte no País, que, como tantos outros, sofre com a falta de incentivo governamental e da iniciativa privada. No entanto, tais problemas serviram como um desafio para ele.

“O esportista brasileiro não pode ficar só reclamando que não consegue patrocínio nem tem estrutura. Ele deve lutar com todas as forças para que a modalidade que pratica torne-se cada vez mais conhecida, conquiste novos adeptos e seja o palco de grandes espetáculos para atrair não apenas o público, mas também parceiros para recursos”, enfatiza Assis.

Aos 33 anos, 14 deles dedicados ao esporte, Assis é um apaixonado pelo que faz. Prova disso é que já coleciona cerca de 4.800 saltos na carreira, além de recordes nacionais e até mundiais, como o realizado nos Estados Unidos ao participar de uma formação no céu com 70 pára-quedistas.

Extremamente técnico e ousado, Assis também foi o autor de um salto, em novembro do ano passado, que culminou na travessia do vão de um viaduto na Rodovia Marechal Rondon, aventura que ele garante ter sido o único até o momento no planeta a realizá-la.

Atualmente, o pára-quedista bauruense é instrutor da modalidade na cidade e, juntamente com seu irmão, César Assis, ajuda a administrar o Skydive Radical Center, um centro de incentivo à prática de esportes radicais em Agudos que este ano pode mudar-se para Bauru.

Em entrevista ao JC, Assis faz um verdadeiro “raio-x” da modalidade ao abordar assuntos como seus benefícios à saúde, o desafio de encarar o medo na hora dos saltos, dicas para iniciantes e eventuais restrições à sua prática. Além disso, ele também fala sobre as dificuldades do esporte no País. A seguir, os principais trechos:

JC - O que o fez trocar a engenharia pelo pára-quedismo?

Assis - Meu primeiro contato com o pára-quedismo foi uma simples curiosidade para conhecer o ambiente aéreo. Tinha vontade de andar de avião e não havia descoberto em mim nenhum interesse em fazer um salto.

Quando apareceu a oportunidade de um curso, imaginei que seria a oportunidade de realizar esses desejos e fazer algo diferente, pois não é todo dia que isso é possível. Meu objetivo era apenas ter mais uma experiência na vida.

Fiz o primeiro salto e fui sentindo que precisava fazer outro para entender melhor como era. Depois o hobby virou uma paixão mais séria. Quando me vi com o tempo mais tomado pelo pára-quedismo ao procurar me aperfeiçoar como instrutor, notei que deixar a engenharia para trás para fazer algo que eu gostava era uma decisão que tinha de tomar.

JC - Então, o pára-quedismo foi paixão ao primeiro salto para você?

Assis - O primeiro salto foi muito diferente do que imaginava. Meu foco era no medo que sentiria, mas notei depois que isso deixou de ser importante, pois fiquei mais deslumbrado e confuso que apavorado. Senti que precisava descobrir dentro de mim como seria minha reação em outros saltos. Acredito que o pára-quedismo é uma maneira da pessoa se descobrir, conhecer seus limites e procurar superar seus obstáculos.

JC - Quando se fala em limites, obviamente há os riscos associados a eles. Como você os encara no pára-quedismo?

Assis - É preciso dividir o pára-quedismo em duas etapas. Todo ambiente aéreo envolve riscos, pois, a partir do momento que se sai do chão, é preciso saber o que fazer para retornar com segurança.

Como a aviação, o pára-quedismo envolve muitas normas que devem ser obedecidas. Se a pessoa segui-las, a chance de um acidente é praticamente zero, diferente de outras atividades do dia-a-dia que não são levadas com tanta seriedade, como dirigir um carro ou atravessar uma rua.

No caso de uma pessoa praticar como lazer no final de semana, com o acompanhamento de uma escola especializada, o risco de um acidente praticamente inexiste.

Já em nível de competição, como ocorre em outros esportes, o pára-quedista pode, por erro de avaliação, ultrapassar seu limite ou sentir-se empolgado e colocar-se em situações de risco desnecessárias. Quase a totalidade dos acidentes ou incidentes relacionam-se à imprudência ou mais de um erro acontecendo concomitantemente.

JC - O pára-quedismo, então, pode ser tão seguro como andar de carro se o praticante obedecer as normas de segurança?

Assis - Gosto de fazer essa comparação. Praticar o pára-quedismo como hobby é equivalente a pegar o carro, dar a volta em um autódromo vazio abaixo do limite de velocidade com o veículo totalmente checado, pneus em dia e a pista sem buracos ou chuva.

De alguns anos para cá, o pára-quedismo é muito seguro. Pouca gente sabe que a maioria dos pára-quedas em escolas possuir um dispositivo de acionamento automático de um pára-quedas reserva que impede que o praticante chegue a uma altura de segurança sem tê-lo acionado, que pode ocorrer por um descuido ou falha humana.

JC - Mesmo sendo um pára-quedista experiente, com mais de 4 mil saltos, você ainda tem medo de saltar?

Assis - O medo acompanha o pára-quedista em todo salto. Isso não é diferente em outros esportes, pois um jogador de futebol ou vôlei tem medo de errar uma jogada ou se machucar. Além do medo da competição, o pára-quedismo traz um medo diferente pelo ambiente ser atípico ao dia-a-dia.

Mas o medo é o grande amigo do pára-quedista, pois o faz manter o equilíbrio, respeitar os limites e o ensina a dosar o arrojo e a serenidade. Entretanto, atualmente, com os equipamentos e as técnicas que se têm, o pára-quedista só se coloca em risco se quiser.

JC - Como é possível sobreviver profissionalmente em um esporte como o pára-quedismo, que não é tão conhecido e difundido quanto o futebol, o vôlei ou o basquete no Brasil?

Assis - A falta de apoio não é “privilégio” do pára-quedismo. O esporte amador no País também é carente, como são outros setores no Brasil. Sabendo e convivendo com isso, os esportistas nacionais, como os atletas de ponta, buscam outros centros para ter apoio. No meu caso, fiz isso apenas para adquirir conhecimentos e fazer intercâmbios, mas pratico aqui.

Acho que faz parte de um desafio, pessoal e daqueles que pertencem à Skydive, buscar formas do pára-quedismo tornar-se viável e aproximar-se do público. Nos últimos dois anos, desenvolvemos um trabalho intenso voltado para tornar o pára-quedismo um esporte interessante de ser assistido de forma geral, com sua plástica e dificuldades, além do arrojo do pára-quedista.

Desta forma, buscamos e criamos um produto mais atraente para patrocinadores e mídia para mudar essa realidade. Não basta para o esportista mostrar que tem talento no Brasil e reclamar da falta de apoio. Este não busca tornar a modalidade que pratica mais interessante para eventuais parceiros financeiros e à imprensa, como o são o futebol e o vôlei.

JC - Então este é o caminho para o esporte decolar no Brasil?

Assis - O caminho é aproximá-lo do público tornando-o atraente e viável como um produto de mídia e comercial, seguindo os moldes, no caso do pára-quedismo, como é feito nos Estados Unidos.

JC - O pára-quedismo é um esporte caro?

Assis - Em nível de competição ele se torna caro, como a maioria dos esportes radicais. Mas para o iniciante é um esporte acessível pela existência de escolas que fornecem equipamentos e técnicas avançadas. Hoje, uma pessoa gasta entre R$ 200,00 e R$ 300,00 para realizar um curso básico com o primeiro salto sem ter a obrigatoriedade de adquirir equipamentos, que é a principal vantagem.

JC - Qualquer pessoa pode praticar o pára-quedismo?

Assis - Em relação à dificuldade de se realizar o salto, o curso é acessível para pessoas acima de 15 anos, de ambos os sexos. Mas é comum notarmos que não há um perfil definido para os praticantes.

Ao mesmo tempo que recebemos estudantes e adolescentes, há pessoas acima dos 40 anos que se iniciam e descobrem no pára-quedismo uma forma de aliviar o estresse do dia-a-dia, adquirir confiança e conviver em um ambiente onde divide suas energias com pessoas das mais variadas faixas etárias.

JC - Existe alguma restrição para se praticá-lo?

Assis - Em termos físicos, para saltar, exige-se que a pessoa tenha a mesma condição para realizar uma corrida ou cooper. Se ela estiver apta para isso, pode praticar normalmente, mesmo se possuir algum problema cardíaco.

Isso porque o medo em um salto é diferente das situações estressantes do dia-a-dia, como um susto, pois o salto é um ato voluntário para o qual você se prepara e sabe o que vai ocorrer. Apesar da dose de adrenalina no sangue e da excitação que ele provoca, não é nenhuma situação de pavor ou susto. A pessoa, mesmo com acompanhamento médico e algum nível de problema cardíaco, pode praticá-lo normalmente.

Já para a pessoa realizar um salto duplo pode ser até uma criança acima de 7 anos, sem limite máximo de idade. No caso da prática de curso para um salto sozinho, é preciso que tenha acima de 15 anos e menos de 135 quilos por limitação do equipamento.

JC - Você coleciona recordes na carreira. Quais foram seus principais?

Assis - Em 1997 e 1998, participei dos dois recordes brasileiro e latino-americano de formação em queda livre. A partir de 1999, além das formações em queda livre, iniciei-me na prática do Trabalho Relativo de Velames (TRV), que consiste em formações com os pára-quedas abertos, conseguindo bater os recordes brasileiro e latino-americano.

Isto culminou com o Pan Americano, em 2001, que me deu condições de participar como o único brasileiro no recorde mundial de 2002 e 2003, que envolveu, respectivamente, formações com 56 e 70 pára-quedistas.

JC - Como foi a experiência de ter realizado com sucesso um salto que culminou em um rasante no vão de um viaduto da Rodovia Marechal Rondon?

Assis - De alguns anos para cá, a indústria de pára-quedismo, com o número de participantes aumentando, ganhou incentivo para criar novos equipamentos. E surgiu como experimental um de altíssima performance, que dá condição ao pára-quedista de adquirir velocidade vertical muito grande próximo ao chão transferindo-a para a horizontal para que o pára-quedas cumpra um vôo rasante e possa passar por obstáculos.

Como um dos pioneiros no uso desse pára-quedas na América do Sul, tive a idéia de descobrir qual é o seu limite, visto que não há no mundo parâmetro a ser seguido dele. Sempre imaginei, até antes desse pára-quedas ser uma realidade, uma maneira de cumprir um desafio que estivesse próximo ao meu dia-a-dia.

Por isso, sempre que passava embaixo do viaduto, imaginava fazer o que mais gosto na vida que é estar saltando. Foi um sonho que passo-a-passo foi transformando-se em realidade na minha cabeça.

Trabalhei esse projeto de maneira muito cuidadosa para não perder o equilíbrio e não ultrapassar os limites, já que não havia como consultar outra pessoa, pois ninguém havia feito algo do gênero no mundo. Contando com o apoio de vários segmentos da cidade, consegui tornar esse sonho uma realização concreta.

JC - Hoje você é instrutor e ajuda a administrar o Skydive Radical Center?

Assis - Fiz curso de instrutror, em 1992, e várias viagens internacionais, me especializando nos Estados Unidos. Todo o meu trabalho era baseado na formação de alunos e saltos duplos. Na nova fase da Skydive, a partir de 1998, demos uma visão diferente ao pára-quedismo, procurando valorizá-lo enquanto espetáculo e atração turística.

Hoje, o Skydive dá atenção tanto para os eventos quanto à formação básica de alunos, dando a oportunidade aos moradores da cidade que visitamos de praticar o esporte com segurança, realizando, no mínimo, um salto duplo com um instrutor.

JC - Qual a chance do Skydive mudar-se para Bauru este ano?

Assis - A Skydive se tornou mais presente na região como realizadora de eventos a partir de 1998 com a instalação em Agudos. E, entre 2001 e 2003, desenvolveu muitas atividades fora do Estado em razão do sucesso.

Hoje, sem ter condições de exercer o pára-quedismo só na região de Bauru, acabamos perdendo um pouco o espaço. Por isso, sentimos que agora é o momento de retomarmos uma participação mais forte na região e notamos o interesse da Prefeitura Municipal em receber a Skydive na cidade.

Vemos com muito otimismo, em 2004, a efetivação da Skydive em Bauru, pois vários órgãos da Prefeitura têm demonstrado interesse em contar com nossa sede por aqui. Seria um espaço junto ao Aeroclube.