Não pode a Justiça deixar de considerar crime inafiançável o assassinato de seres realmente viventes. Então, considera-o e pune exemplarmente bafejada pelas leis que têm em mãos, pensadas e redigidas com essa exata finalidade. Mas quando o castigo deixa de aplicar-se no caso de seres não viventes, muitos ficam a bel prazer para cometê-lo. Longe do desejo de assustar os leitores, arriscamos manifestar que não poucas pessoas muitas vezes se condicionam para cometer um, já que não o consideram pecado venial... E quem seria a vítima da audácia? Qual o motivo? Há uma variedade, mas queremos citar um: o indisfarçável sentimento muito humano, chamado saudade, que já os persegue, talvez, há um bocado de tempo, não os abandonando instante sequer, nem quando se entregam às delícias e ao conforto de um sono profundo ou a certo entretenimento tranqüilizador. Sendo ela, dessa forma, inquestionavelmente pertinaz, não conseguem os seres furtar-se ao propósito de tirar-lhe a preciosa vida. Incluiríamos aqui a imensa saudade que milhões de espectadores de cinema têm do Popeye que, nascendo nas milhares de telas do universo há 75 anos, desapareceu do seu berço, levando também para as distâncias a magrinha Olívia Palito e o rival Brutus, deixando entristecidos tantos e tantos corações. Não só tristes como chorosos. Saudade malvada! Assistimos suas aparições do Popeye, como os demais, a partir da juventude, batendo palmas aos desenhos através das quais ele difundia seu alimento preferido, o espinafre, vestido de calças azuis, camisa preta, gorro branco e cachimbo na boca. Tornou o legume tão consumido no mundo que, nos Estados Unidos, numa cidade do Texas, Crystal City, e em Chester, Illinois, tem a sua memória homenageada com estátuas, revestidas de marinheiro, exatamente como sua figura se tornou famosa na cinematografia há três quartos de século, logo após ser inventada por uma história de Elzie Segar (sabiam disso?) escrita para um jornal de Nova York. Então, nós e tanta gente que o conhecemos estamos loucos de saudade do desaparecido marinheiro, destemido, valente, vitorioso em todas as suas cômicas brigas com Brutus. Os 75 anos que passaram não podem ter apagado os seus desenhos de maneira a torná-los esquecidos. Aspirar-se voltar a revê-los nas telas como antigamente, matando a teimosa saudade para tornar viva a sua imagem, definitivamente presa nos corações dos fãs, num crime que vale a pena e a Justiça não pode punir. É a nossa opinião.
O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.
“Todo o vale será exaltado e todo monte será abatido. Mas o que está torcido se endireitará e o que é áspero se aplainará - Isaías 40.4”.