09 de julho de 2026
Articulistas

As lições de Mumbai


| Tempo de leitura: 2 min

A quarta edição do Fórum Social Mundial (FSM) que aconteceu em Mumbai, Índia, uma vez mais aglutinou um amplo elenco de organizações civis e movimentos sociais de nosso planeta, que, como em Porto Alegre em 2003, expressaram suas inquietações sobre a marcha do mundo e discutiram alternativas capazes de devolver a grande parte da humanidade sem recursos a dignidade que lhe corresponde. A realização do FSM na Índia foi um acerto, já que o encontro aproximou bastante os movimentos sociais da Europa, América Latina e África e seus homólogos asiáticos que participaram em maior número.

O Fórum abriu suas portas com a presença de milhares de pessoas de diversas regiões e etnias do país, procedentes dos setores mais pobres e marginalizados. A presença desses grupos era uma demonstração palpável da própria situação em que vivem milhões de seres humanos em todo o mundo, devido a políticas econômicas inspiradas em um liberalismo selvagem sem rosto humano.

O FSM foi um êxito em participação. Recebeu cerca de cem mil pessoas, das quais aproximadamente 30 mil eram dalits, ou intocáveis, da Índia. Foi realizada uma centena de seminários, palestras, oficinas e debates sobre os temas já mencionados junto com outros como democracia e participação cidadã, paz, exploração de recursos naturais, gênero e igualdade de direitos, comércio justo, segurança alimentar e exploração infantil, ressaltada especialmente no Fórum pela Campanha contra o Tráfico de Crianças, que destacou, durante o debate sobre essa triste realidade, o fato de que todos os dias cerca de três mil mulheres e crianças são vítimas do tráfico de seres humanos, convertidos, assim, em prisioneiros desse mercado ilegal que gera por ano cerca de US$ 10 bilhões.

Milhões de seres humanos buscam hoje, em vão, acesso aos recursos. É um direito que devem ter reconhecido e concedido. Milhões de crianças, adolescentes e adultos precisam de acesso a educação e saúde, de participação, segundo fórmulas consensuadas, na formulação das políticas públicas que determinam seus destinos. Isto não ocorre em muitas partes do mundo. A mudança social nesse sentido é uma das apostas do FSM. De concreto, o Comitê Organizador e a opinião majoritária dos delegados enfatizou a necessidade dessa mudança, buscando novas estratégias para a construção de uma nova economia cujos dividendos devem ser amplamente distribuídos e repartidos na sociedade.

O Fórum não deve apenas continuar exibindo o espelho do outro mundo esquecido e marginalizado, isto é, a outra face de nosso planeta. Deve também ser um grupo de pressão permanente diante dessas forças econômicas e financeiras do Norte para que mudem suas políticas adotando com urgência estratégias de erradicação da pobreza, as quais devem facilitar a emergência de um mundo novo em que todos os povos vivam e convivam com alegria, paz e bem-estar. Estamos convencidos de que esse mundo é possível.

A autora, Francisca Sauquilho, é presidente do Movimento pela Paz e a Liberdade e parlamentar européia do Grupo Socialista.