08 de julho de 2026
Auto Mercado

Lendas ao volante?

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Dizem que o brasileiro é um povo apaixonado por automóveis. Seja no bar, no trabalho ou nos mais variados ambientes, os carros viram assunto freqüente nas rodinhas de conversa. Desta forma, não é raro surgir durante os papos aquelas idéias que, mesmo não possuindo um mísero traço de racionalidade, transformam-se em verdades absolutas no universo da manutenção, economia e segurança veicular.

“Tudo fica pior quando essas lendas vão sendo passadas boca a boca. Nessas horas, quase sempre aquele que conta acaba relatando o que ouviu de maneira diferente”, considera o instrutor automotivo Reinaldo Genovez, da unidade bauruense do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Uma das “lendas” mais comuns é a que garante que os carros seguros não amassam e os modelos atuais, por possuírem chapas finas na carroceria, são menos resistentes. “Não é verdade. A regra é oposta, pois os carros de hoje em dia possuem um nível elevado de segurança”, ressalta.

Exemplo disso, conforme Genovez, é que muitos veículos possuem zonas de deformação programada na carroceria desenvolvidas para absorverem choques e proteger o habitáculo do motorista. “As chapas dos carros antigos até eram mais fortes, mas não significa que são mais seguros”, enfatiza.

Ainda no quesito segurança, Genovez rechaça a crença de que os pneus em melhor estado de conservação devam permanecer na dianteira. “É óbvio que os quatro devem estar em perfeitas condições, mas se o dinheiro está curto e a pessoa puder comprar apenas dois novos, é preferível que estes sejam instalados na traseira”, recomenda.

O instrutor sustenta que, em um eventual estouro de pneu traseiro, praticamente não há como controlar a estabilidade direcional do veículo. “Desta forma, o risco de um acidente sério aumenta”, alerta Genovez. “Já o mesmo problema na dianteira, mesmo se os pneus estiverem ruins, o condutor tem a chance de corrigir o desequilíbrio do automóvel através da direção.”

Andar na “banguela” - com o carro desengatado - é outro hábito que para muitos donos de automóveis virou sinônimo de economia de combustível, um grande engano. “Isso só é possível em veículos carburados, mas o álcool ou gasolina poupados não chegam a um copo em uma viagem de Bauru a São Paulo. Além disso, nessa condição a lubrificação do motor é mais deficiente”, explica Genovez.

Ele acrescenta ainda que, nos autos equipados com injeção eletrônica, as estratégias de funcionamento do componente impedem uma eventual economia de combustível na “banguela”. “Os modernos sistemas de injeção atuais dosam uma quantidade mínima necessária de álcool ou gasolina para o veículo mesmo se este não estiver acelerando”, esclarece o instrutor.

Outra “verdade” entre os motoristas é que o ar-condicionado diminui a potência dos veículos, mais um equívoco. “Como este equipamento tem como fonte de funcionamento a energia mecânica do motor, ao ser acionado ele utiliza parte da potência disponibilizada no sistema. Por isso, para obter o resultado desejado acelerando com o ar ligado, é necessário pisar mais, o que aumenta o consumo”, ensina.

Pensando nisso, complementa o também instrutor automotivo do Senai, Jefferson Luiz Augusto Gomes, é que as montadoras desenvolveram dispositivos que cortam o funcionamento do ar-condicionado nas situações em que a potência é mais exigida, como em ultrapassagens. “É uma parada momentânea, pois tão logo o motorista termine de executar a manobra o sistema volta a operar normalmente”, destaca.

E é também graças à tecnologia atual das montadoras que torna-se desnecessário o “amaciamento” - ajuste dos componentes - dos motores em veículos zero quilômetro, procedimento adotado por vários condutores.

“Isso só é necessário em propulsores que sofreram processos de retífica”, orienta Genovez. “Os carros são exaustivamente testados e rodam vários quilômetros antes de serem comercializados”, complementa o instrutor.

____________________

Conversa nada 'mole'

Diferentemente das lendas, mitos e papos furados sobre os automóveis, há muita conversa nas rodinhas que está longe de ser “para boi dormir”.

Se você ouvir um amigo falar que não se deve frear em curvas, acredite nele, pois ele estará com a razão. “Não é recomendável porque a frenagem nestes locais pode provocar o travamento das rodas, fazendo o automóvel perder sua estabilidade direcional”, adverte o instrutor Reinaldo Genovez, do Senai/Bauru.

Além disso, frisa o técnico, é essencial saber fazer uma curva corretamente. “Se ela for à direita, o condutor deve superá-la apoiando o veículo à direita da sua faixa. Já se for para a esquerda, a maneira correta é atravessá-la pelo centro de sua mão de direção”, orienta Genovez.

Creia também no fato de que reduzir marchas para segurar o motor em uma descida é melhor que frear incessantemente. “Nestas condições, descer engrenado em marchas reduzidas é fundamental para não sobrecarregar o sistema de freio, que pode superaquecer-se e perder eficiência”, explica Genovez.

“É fácil notar que o freio não está bom, pois o pedal começa a ficar duro”, acrescenta o instrutor Jefferson Luiz Augusto Gomes, do Senai/Bauru.

Tenha fé no interlocutor se ele lhe contar ainda que permanecer no semáforo com a embreagem acionada e a primeira marcha engatada é prejudicial ao sistema. “Isso e a mania de segurar o carro na embreagem só provocam desgaste prematuro de uma série de componentes. Por isso, ao parar em um cruzamento, desengate o carro e utilize o freio de mão ou de serviço”, ressalta Jefferson.

Não aja diferente se o “conselheiro” mecânico disser que não há problema algum em trocar as marchas com o carro desligado. “O que provoca danos é permanecer com a mão na alavanca de câmbio. Tal hábito faz com que o equipamento vá perdendo as folgas necessárias para operar com eficiência, causando seu desgaste prematuro”, diz Genovez.

Outro ponto digno de crédito é o fato de que esterçar o volante com o automóvel parado pode ocasionar danos à carroceria. “Ela pode trincar em vários pontos de fixação do equipamento. Para evitar isso, movimente um pouco o veículo antes e depois comece a manusear o volante”, orienta Jefferson.