08 de julho de 2026
Ser

Sem medo, nem choro na escola

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

As férias estão terminando e, em poucos dias, as crianças voltam à rotina estudantil. Algumas já retomaram as aulas e outras vão entrar numa escola pela primeira vez. O momento marcante requer preparo não só dos pequenos, mas, principalmente, dos pais.

A psicóloga Marly Bighetti aponta que no caso do ingresso na escolinha é necessário que se faça um desligamento de uma maneira bem tranqüila, conversando com a criança, independente da idade, e explicando que ela vai para a escola. “É interessante que ela conheça a escola sem ser no período de aula. Ela pode ir durante a matrícula, ou no ano anterior, durante as atividades, para que possa participar dessa dinâmica antes de começarem as aulas”.

Nesta visita, é válido mostrar não só as coisas diferentes, mas o que é fundamental, como onde fica o banheiro, a sala de aula e a quem ela deve procurar para pedir alguma coisa. Isso deve ser repetido, inclusive, em cada instituição que os pais irão conhecer antes de fazer a sua escolha.

Para a psicóloga, não existe uma idade pré-determinada para o ingresso numa escola. O que vai determinar é a necessidade dos pais, que, muitas vezes, trabalham fora ou até mesmo das crianças, que em alguns casos, passam muito tempo sozinhas ou não têm contato com outras crianças.

No caso dos bebês também é necessário este acompanhamento inicial. “Mesmo numa viagem com um bebê, é importante conversar com ele e explicar que vão estar num ambiente diferente. Se por exemplo vão à praia, deve-se explicar como é o mar, a casa ou o lugar onde vão ficar, para que ela vá sentindo o preparo para a mudança.”

Segundo Marly, é equivocado pensar que a criança não entende nada. Se ela sair de um lugar e for para outro totalmente diferente, ela irá sentir e reagir bem ou mal ao local.

“A escola é um desses ambientes diferentes. Então se você for levar um bebê, vá conversando com ele dizendo que escolheu um lugar gostoso para ele ficar enquanto trabalha, mostre o bercinho, apresente a pessoa que vá cuidar dele com todo carinho”, aconselha.

As mães devem levar os filhos uns dias antes de terminar a licença-maternidade e acompanhar pelo menos por alguns minutos as ações das crianças.

Em caso de uma reação chorosa, a acolhida da escola é fundamental e a postura dos pais também. Muitas vezes, o sentimento de pena ou de culpa dos pais acaba por arrancar as lágrimas da criança que percebe o que está se passando.

“Muitas vezes, a mãe não está segura de que é o melhor momento do filho ir para a escola e acaba passando isso para a criança, mesmo sem dizer. Nesses casos, é melhor que uma pessoa mais segura leve a criança à escola.”

Estágio

Foi pensando em minimizar o trauma da ruptura da relação integral de mãe e primeiro filho que Sônia Valéria Tavares Zanardi Crepe, 34 anos, está fazendo um acompanhamento na escolinha em que André, 1 ano e 5 meses, irá “estudar” a partir das próximas semanas.

“Estamos num processo de adaptação. Eu levo o André para escola duas horas por dia para ele ir se acostumando”, comenta a fonoaudióloga, que trabalha meio período e está novamente grávida.

Outra preocupação de Sônia é de que quando o novo bebê chegar, André já esteja adaptado ao convívio com outras crianças e tenha desprendido um pouco das avós, que também se revezavam para lhe fazer companhia.

Para fazer a escolha, ela percorreu várias escolas, conversou com outros pais e escolheu uma instituição organizada, próxima de sua casa, com poucos alunos na faixa de idade de seu filho e iniciou a adaptação.

“Começamos aos poucos. No primeiro dia, eu fiquei lá o tempo todo, mas ele nem ligou (risos). Eu fiquei lá por ficar. Ele via, mas em nenhum momento me procurou ou quis ficar comigo. Acho que ele gostou.”

A mãe também. Ela ficou contente de ver o filho interagindo com outras crianças e demonstrando independência. Sônia conta que sai bastante com o marido e que André está acostumado com muita gente ao seu redor.

O fato de trabalhar apenas meio período também minimiza a dor de deixá-lo. “Acredito na escola como um ambiente bastante estimulante para a criança”, defende.

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Estratégias de bem-estar

Se de um lado os pais morrem de preocupação, do outro lado diretores e coordenadores pedagógicos lançam mão de uma série de estratégias para receber as crianças da melhor maneira e sem traumas. Afinal, essa primeira vivência firma a nova fase de sociabilização da criança.

“Fazemos com que esse primeiro contato das crianças com a instituição seja o mais divertido possível. Começamos a aula dos menores num dia diferente das turmas de ensino fundamental. Preparamos a sala, fazemos lembrancinhas, elaboramos uma programação de socialização repleta de brincadeiras com os amiguinhos, abusando da área de lazer que temos na escola, tudo para que o aluninho se sinta seguro ”, aponta Izilda Guarnetti dos Santos Ducatti, diretora de um colégio de educação infantil em Bauru.

Com relação ao preparo dos professores, na hora da matrícula é feito um dossiê de cada novo aluno que é detalhado para cada professor antes das aulas começarem. Dessa forma, ele já conhecerá a sua turma previamente.

Segundo, Célia Beatriz da Silva, coordenadora de outra escola de ensino infantil bauruense, a fase de adaptação não ultrapassa duas semanas para a criança estar totalmente adaptada.

“É um momento marcante que merece toda a atenção dos pais, mas muitos deles ainda carregam o sentimento de culpa por deixar os filhos tão novos na escola”, comenta. “É minoria, mas ainda acontece”.

Dessa maneira, ela estabelece uma parceria com os pais no sentido de que mesmo depois de terem escolhido a escola de seu filho, conhecido de perto o método e a rotina da instituição, levado a criança somente para passear no local sem qualquer comentário ou obrigação, se a criança chorar a escola vai comunicar e fazer tudo para que o período escolar não seja traumático.

“Nós nos prendemos ao prazerosos e num primeiro momento trabalhamos o reconhecimento do espaço e o prazer de estar com os amigos.”

Célia, que trabalha com educação há 15 anos, aconselha os pais a terem uma conversa sincera com a criança, principalmente na faixa de 1 a 3 anos, que é a que acaba sofrendo mais com a ida à escola. “Por experiência própria, o meu filho de 1 ano e 3 meses chorou muito mais do que a minha filha que entrou na escola aos 11 meses. Eu senti que foi mais interessante ela ter entrado mais cedo na escola, até para aprender a conviver em grupo, porque hoje as exigências são outras.”

Acima de tudo, os pais devem passar entusiasmo e evitar qualquer sentimento de insegurança. Mas na verdade, eles pecam por superproteção.